Nino gostava muito de visitar a vó Estrela e o vô Fubá no
sítio que ficava ao lado da Escola da Roça. Assim como o outro avô de Nino, vó
Estrela tinha muitas histórias pra contar. Umas engraçadas e divertidas, outras
interessantes e outras tristes também.
Para melhor ensinar seus alunos da Escola da Roça, Nino
pedia sempre que a vó Estrela contasse dos tempos em que os humanos, além de se
alimentarem da carne dos animais, bebiam também seu leite. Principalmente o das
vacas. Nos tempos muito antigos isso era feito de um jeito tranquilo, as
pessoas tinham suas vaquinhas e iam até o estábulo pela manhã para retirar um
pouco de seu leite com muito cuidado o que não causava problema nenhum nem às
mamães vacas e tampouco aos seus filhos bezerros. Mas depois, veio o tempo da
ganância, o tempo das cidades grandes com pessoas amontoadas em edifícios e
casas coladas umas às outras, sem quintais. Nesse tempo, as pessoas moravam em
espécies de caixas de cimentos postas umas sobre as outras e trabalhavam em
outras caixas. Não tinham terra e nem tempo. Diziam que precisavam de muita
carne e muito leite para poder trabalhar mais e mais.
Foram tempos de alergias, de problemas de estômago e
intestino. Foram tempos de muitas doenças e ninguém se dava conta. O pior disso
tudo era o jeito que esse leite era retirado das vacas, por meio de máquinas e
os bezerros, coitados, era melhor nem falar nada sobre isso.
Eram tempos difíceis para os animais. Até mesmo os cães, que
eram tratados como reis nos apartamentos. Sofriam de muita solidão e não
gostavam de lembrar da forma que eram reproduzidos em canis especializados,
vendidos a preço de ouro.

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