sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Nino, o bezerro menino - Parte 6: Tata e as composteiras germinadoras

Tata era uma menina de 7 anos, trabalhadeira como ela só. Ela não aparentava, mas tinha uma força sobrenatural como se fosse um superpoder. Manejava enxada, enxadão, pá e cavadeira como um homem adulto (dos fortes) e o que ela mais gostava era ensinar a molecada a melhor forma de aproveitar as sobras de comida, as cascas de frutas, as podas do jardim para produzir o melhor dos adubos que germinaria as mais saborosas delícias vindas da horta e do canteiro de ervas.
Além de transformar lixo em  adubo, Tata transformava também tristeza em alegria, doença em saúde, depressão em entusiasmo, preguiça em agitação. Ela tinha raios de luz nas palmas das mãos e com esses raios tudo era possível, feito mágica, feito bênção, feito cura.
O sonho de Tata era de que todos os habitantes de todas as cidades do mundo aprendessem a fazer o mesmo que ela fazia, que todos soubessem como transmutar a energia do lixo em energia de luxo, que as pessoas se curassem umas às outras, que o planeta se curasse e vibrasse numa frequência mais leve, mais limpa, mais verde, mais clara.

Tata já tinha ajudado Nino por ocasião de uma pata torcida e Nino era eternamente grato àquela menina, tão nova, tão velha...

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Nino, o bezerro menino – Parte 5: A avó Estrela e o avô Fubá e a questão da carne e do leite


Nino gostava muito de visitar a vó Estrela e o vô Fubá no sítio que ficava ao lado da Escola da Roça. Assim como o outro avô de Nino, vó Estrela tinha muitas histórias pra contar. Umas engraçadas e divertidas, outras interessantes e outras tristes também.
Para melhor ensinar seus alunos da Escola da Roça, Nino pedia sempre que a vó Estrela contasse dos tempos em que os humanos, além de se alimentarem da carne dos animais, bebiam também seu leite. Principalmente o das vacas. Nos tempos muito antigos isso era feito de um jeito tranquilo, as pessoas tinham suas vaquinhas e iam até o estábulo pela manhã para retirar um pouco de seu leite com muito cuidado o que não causava problema nenhum nem às mamães vacas e tampouco aos seus filhos bezerros. Mas depois, veio o tempo da ganância, o tempo das cidades grandes com pessoas amontoadas em edifícios e casas coladas umas às outras, sem quintais. Nesse tempo, as pessoas moravam em espécies de caixas de cimentos postas umas sobre as outras e trabalhavam em outras caixas. Não tinham terra e nem tempo. Diziam que precisavam de muita carne e muito leite para poder trabalhar mais e mais.
Foram tempos de alergias, de problemas de estômago e intestino. Foram tempos de muitas doenças e ninguém se dava conta. O pior disso tudo era o jeito que esse leite era retirado das vacas, por meio de máquinas e os bezerros, coitados, era melhor nem falar nada sobre isso.
Eram tempos difíceis para os animais. Até mesmo os cães, que eram tratados como reis nos apartamentos. Sofriam de muita solidão e não gostavam de lembrar da forma que eram reproduzidos em canis especializados, vendidos a preço de ouro.

Eram tempos estranhos. Nino ficava um pouco triste ao ouvir tudo aquilo, mas achava importante que as crianças soubessem o que seus antepassados haviam feito para não repetirem o erro.

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

NATY QUÉLI NEVE (Drizotti)

Naty era uma menina muito linda. Seu rosto parecia uma pintura, um afresco da Capela Sistina na Itália. Ela vivia rodeada de amigas e amigos numa cidade pacata de um país que se dizia abençoado por Deus e bonito por natureza. Ela concordava, achava o país bonito, mas acreditava parcialmente na tal bênção de Deus, pois sabia que seu povo era muito sofrido e muito trabalhador também. Mas ela estava cansada. Cansada da mesmice, do mesmo trabalho, das mesmas festas, do mesmo sol. Ela queria neve, não aguentava mais o calor, os trópicos, o marasmo, a falta de chuva, a falta de frio. E foi assim que ela resolveu ir pra Boston, uma cidade dos Estados Unidos onde neva muito, onde faz muito frio no inverno.
Chegou lá toda animada, brincou na neve, sentiu a neve, provou a neve, tirou fotos na neve. Ela adorava a neve! Ela amava a neve! Meu Deus, como é bom ter neve!
Acontece que Deus, que na verdade não tem aquela cara brava das pinturas bíblicas e, ao contrário, é um cara gozador e fanfarrão, ouviu muito bem as palavras da menina e resolveu brincar de Deus, ops, ou melhor, brincar de fazedor de neve. E mandou ver! Mandou de presente pra Naty a maior nevasca da história!
Era neve que não acabava mais, neve na porta, neve no carro, neve no telhado, neve até o joelho, era tanta neve que na tarde de terça-feira quando ela saiu de casa, a neve estava até o pescoço!
E Naty dizia: “Estou com neve até o pescoço!”. E o pessoal dizia: “Tá reclamando?” e ela respondia: “Não! Tô adorando! Estou com neve até a altura do pescoço! Graças a Deus!”
E não é que era graças a ele mesmo? Deus tem dessas...

domingo, 25 de janeiro de 2015

Mindi e o Mago Azul - Parte final: Os marcianos marinhos e a mensagem do Mago Azul

Atracaram no cais de marte entre borboletas flutuantes e Mindi pôde perceber que os corpos pelados daqueles marcianos tinham era de um azul escuro da cor do sofá da sala de sua casa. Seus olhos eram bem pequenininhos e bem juntinhos, próximos a uma suave elevação que vinha no lugar do nariz nosso de cada dia nos dai hoje. (Desculpaí, mas é que Mindi tinha mania de colocar trechos de músicas, de poemas e de orações em seus pensamentos sobre o mundo). A boca deles era bem pequenininha também, mas mesmo assim dava pra notar que eles esboçavam um sorrisinho tímido com a ponta da língua pra fora, mas só um pouquinho... a ponta da língua deles era rachada no meio, que nem cobra, pensou a menina, que não sentiu nem um pingo de medo, pois eles tinham um jeito bem bonzinho de ser e transmitiam uma paz imensa. Eles eram de poucas palavras e faziam sinais mostrando o interior da ilha ou continente ou planeta marte. Nossos amigos os seguiram e eles entraram em uma caverna que subia em forma de toboágua de trás pra frente. Eles foram subindo subindo, escorando nas paredes de pedra que nem aquela brincadeira de subir em batente de porta. No final desse túnel ascendente havia luz e foi pra lá que eles seguiram. Keuto, todo animado, espalhando pozinho brilhante por onde passava e conforme fazia esforço pra subir, soltava uns punzinhos de purpurina que tinham cheiro de talco de vó. Ao chegar lá em cima, qual não foi a surpresa de ambos ao se deparar com o Mago Azul, em todo seu esplendor!! O Mago abraçou os marcianos fazendo um pequeno cafuné nas carecas azul marinho deles e logo em seguida deu aquele abraço maravilhoso neles! Em seguida, explicou que na verdade, tudo era uma coisa só. Que no plano azul do Mago Azul não haviam separações de planetas ou países ou raças ou nível econômico, político,cultural, blá blá blá... “Tudo é uma coisa só, meus queridos, tudo está interligado pelas redes do amor universal!” Mindi sentiu-se transbordar de alegria e Keuto emanava uma luz branca opalescente mais brilhante do que nunca com explosões de purpurina feito mini rojões saindo da sua cabecinha branca! “Aí sim! Agora tudo faz sentido!” pensou Mindi enquanto espreguiçava afastando o edredon para o lado... “Ops! Cadê o Keuto? Cadê os marcianos? Cadê o Mago Azul?” Mindi estava novamente em seu quarto, deitada na sua cama e não sabia se tinha sonhado tudo aquilo ou se tudo aquilo é que tinha sonhado ela... FIM

Mindi e o Mago Azul - Parte 3: Keuto em mares nunca dantes navegados

Mindi estava deitada em sua cama descansando do mundo das engrenagens quando ouviu o som do didgeridoo do Keuto e já começou a rir... Dessa vez Keuto fez um som de monstro marinho, com uns glup glups pelo meio. Ela não entendia como ele fazia aquilo e achava tudo isso bem engraçado! Ela desceu rapidamente a escadaria que levava para a sala e foi seguindo o som até a varanda. No canto esquerdo da varanda havia um laguinho com peixes vermelhos e plantas aquáticas e era lá mesmo que Keuto tinha sentado em posição de lótus (feito Buda ou Yogue) pra tocar seu didgeridoo). Keuto estava bem compenetrado e ficou até meio bravo ao ver que a menina ria de seus sons. Ele se achava tocando aquilo e queria que todos ficassem sérios, admirando seu trabalho. Mas Mindi não estava nem aí e ria muito daqueles sons marinhos. Além disso a cara do Keuto estava engraçada demais! Seu formato de massinha já adquirira os contornos de uma roupa de monge e ela sabia que ele era levado da breca e que de monge não tinha nada. Quanto mais Keuto se irritava, mais engraçados ficavam os sons! Agora, por exemplo, parecia uma discussão de baleias sobre o sentido da vida no fundo do mar. Mindi fechou os olhos de tanto rir e quando abriu, estava em alto mar com Keuto, sendo levada por uma caravela como aquelas que os descobridores das américas usavam. Só que essa embarcação deles tinha por velas, borboletas coloridas e sua tripulação era toda composta por insetos gigantes! O capitão era uma joaninha de chapéu de pirata, haviam libélulas, louva a deus, grilos, borboletas menores de uma cor só e até uma barata que varria o convés (“ai que nojo!”, pensou Mindi, mas logo depois fez um esforço e se libertou de seu preconceito contra as baratas). Keuto estava radiante, ele e Mindi estavam naquele lugar lá no alto, que parece um cesto, de onde os piratas observam ao longe pra ver se vem vindo mais alguém no alto mar. De lá eles viam o barco todo e as quatro direções de horizonte das águas salgadas que os rodeavam. De repente avistaram algo ao longe: “Terra à vistaaaa!” gritou Keuto rapidamente, com medo que a menina gritasse primeiro (ele queria sempre ser o primeiro em tudo, Mindi pensou que era mais uma coisa a ser curada pelo Mago Azul). Os insetos ficaram alvoroçados e conforme eles se aproximaram daquelas terras, Mindi pôde se dar conta de que na verdade, não estavam no planeta Terra e sim em águas de Março, ops, águas de Marte. Em pé sobre a pedra do cais, alguns marcianos de corpo escuro e esguio faziam sinais com uma bandeira. No rasinho e nas pedras, algumas borboletas pousavam mexendo levemente as asas. (continua no capítulo 4)

Mindi e o Mago Azul - parte 2: Keuto e as engrenagens

Mindi almoçou quieta, em estado de graça. Dava uns suspiros de vez em quando, sempre com um sorrisinho de canto de boca. Os adultos olhavam curiosos, mas resolveram não comentar, afinal, “Time que tá ganhando não se mexe” e era bom passar o dia sem aquele fuçadeira fuçando em tudo. Depois do almoço, Mindi foi para o quintal espiar as galinhas. Ela gostava das galinhas, tinha a impressão de que se comunicava perfeitamente com elas e as galinhas gostavam dela também. Quando ela se aproximava, as galinhas vinham ao seu redor e ficavam encarando a menina, com aqueles olhos que olha sem ver, de galinha pescoceira ciscadeira, feito Mindi fuçadeira. Ao lado do galinheiro tinha um quartinho de ferramentas, Mindi já estava meio que pressentindo e, de repente, dito e feito! O facho de lanterna relampejou dentro do quartinho e Mindi já sabia de antemão que seria só entrar pra reencontrar seu amigo Keuto. “Mindi não Mim, Mindi de ninguém!” Foram as primeiras palavras do homenzinho branco ao vê-la. Ele também estava curado, sabia que Mindi não era só dele. Entendera que Mindi não era de ninguém. A menina sorriu satisfeita. Já estava com saudades daquele branquelinho carinhoso! Keuto fez um sinal e Mindi se aproximou do cantinho escuro de onde ele tinha surgido. “Vem Mindi, vem ki!” E lá se foi Keuto pra dentro de uma caixa velha de ferramentas. Mindi não teve dúvidas e seguiu o pequenino, enquanto seu corpo encolhia novamente. Passaram no meio de um bosque de alicates, chaves de fendas, parafusos e martelos e chegaram num local cheio de engrenagens, parecendo o filme do Charles Chaplin, Tempos Modernos! Keuto estava totalmente em casa, andava pelas engrenagens feito equilibrista de circo e Mindi foi fazendo o que podia para segui-lo. De engrenagem a engrenagem, chegaram numa caldeira enorme, com uma fornalha feito forno de pizza só que grande, só que de metal, só que com muito carvão e Mindi percebeu que os carvões eram trazidos por besouros pretos, daqueles que de vez em quando viram de ponta cabeça e não conseguem mais desvirar, feito fuscas capotados. Os tais besouros tinham uma espécie de bagageiro nas costas e vinham em fila trazendo os tocos de carvão para a caldeira. Conforme a caldeira borbulhava iam brotando eletrodomésticos que saíam de cima dela por uma esteira que conduzia a um porão onde caminhões de várias lojas vinham buscar. Mindi viu televisões, liquidificadores, aparelhos celular, computadores, tablets, etc, tudo saindo daquele lugar estranho e quente, movido pelo trabalho incansável dos besouros e pensou que o mundo das tecnologias era bem estranho mesmo. Keuto estava orgulhoso, tinha maços de dinheiro nas mãos. Mindi reparou que eram notas chinesas e coreanas. Keuto guardava tudo num bauzinho que já estava transbordando de tantas notas que mal fechava a tampa. O mini massinhudo teve que sentar em cima da tampa do baú para poder, finalmente, fecha-lo e passar o cadeado. A chave ele engoliu, sabe-se lá como faria para recuperá-la mais tarde... Mindi não gostou muito desse mundo, pensou que preferia mais o mundo do Mago Azul, mas achou interessante a visita e voltou correndo pra caixa de ferraementas, quartinho, galinheiro, casa sentindo-se muito cansada com aquele passeio inusitado entre as engrenagens do mundo.

sábado, 24 de janeiro de 2015

Mindi e o Mago Azul - Parte 1: Mindi conhece Keuto e o Mago Azul

Mindi era uma menininha muito pequenininha e muito serelepe também. Gostava de fuçar em tudo, até onde não era chamada. Os adultos sempre diziam: - Pare de fuçar onde não é chamada, Mindi! Mas Mindi não estava nem aí. Uma vez ela tinha ouvido um pedaço de música que dizia que era preciso pedir licença mas nunca deixar de entrar e às vezes ela sentia uma licença no ar, nem pedia e já entrava, já fuçava, já ia descobrir coisas com seus olhos, com seus ouvidos, com suas mãos, com seu coração. E foi numa dessas fuçações que Mindi descobriu o portal que a levaria até o Mago Azul. Mas isso já é uma outra história... *** Foi numa manhã de domingo, de um domingo ensolarado. Batia um ventinho gostoso, os adultos preparavam o almoço na grande casa da família. Vale aqui explicar que a família de Mindi era bem grande. Eles moravam todos perto uns dos outros e tinha a casa grande, onde eles se reuniam aos domingos para cozinhar juntos, rir e tomar um aperitivo de azeitonas verdes, queijo meia cura com azeite e orégano e uma cervejinha bem geladinha enquanto cozinhavam. Mindi fuçadeira, fuça, fuça e sobe na escadinha de madeira que levava para a parte de cima da sala, era como uma casa de árvore só que dentro e sem árvore. Ela gostava desse lugar, às vezes até dormia lá, enroladinha num colchonete, feito cachorro dengoso. Naquela manhã, logo que chegou ao último degrau da escada, Mindi notou que tinha alguma coisa estranha, diferente e já foi ficando curiosa. Observou tudo com atenção. Tudo parecia estar no seu lugar, só que não, havia algo a mais, algo que não se via com os olhos, algo que se sentia sem ver nem tocar... A menina resolveu então se sentar no piso de tábuas de madeira e fechar os olhos para “captar” melhor o que não se podia ver. Bem de leve, como se não fosse isso, ela sentiu como que um roçar de asa de borboleta no seu rosto. Abriu os olhos e não viu nada. Fechou os olhos novamente e sentiu um toque leve, quente nas costas de sua mão esquerda. Mindi era canhota e tinha muita sensibilidade nessa mão. Abriu novamente os olhos e nada! Foi então que ouviu uma risadinha e, mesmo de olhos fechados pôde notar um clarão de lanterna vindo do canto da estante. Dessa vez não tinha como negar, abriu os olhos e agachou-se procurando o lugar de onde tinha vindo o facho de luz. E lá estava ele. Aquela coisinha engraçada, meio leitoso, meio transparente, como se fosse feito de massa de modelar. Pois é! Depois ela soube que aquele era o guardião do portal do mago. Ele era uma espécie de boneco de massinha branca mesmo e se chamava Keuto. Logo que conheceu a menina já se sentiu amigo íntimo e, consequentemente, (pra sua lógica de massinha), dono dela. Keuto apontou para uma brecha entre as madeiras da estante e fez sinal para que a menina o seguisse. Misteriosamente, Mindi sentiu todo seu corpo encolher e quando deu por si, já tinha atravessado a fenda da estante, seguindo de perto, os passos do pequenino. Keuto falava usando palavras soltas e conjugando as frases de um modo só seu. Queria que ela fosse só dele e começou a repetir sem parar “mim mindi, mim mindi, mim mindi”, o que, na sua linguagem, significava “A Mindi é só minha”. Mindi achou aquilo tudo bem divertido, não se importava com sentimentos de posses ou de desprezo, pois ela era ela e como já dissemos, ela não estava nem aí! Abraçou o Keuto até amassá-lo (massinha era pra amassar, né?), só que não muito para que ele não perdesse sua forma de boneco gorduchinho e seguiram de mãos dadas pela trilha florida que levava a uma caverna. Na entrada da caverna Mindi sentiu uma pontinha de medo, mas Keuto logo acendeu e tudo se iluminou. Então, por incrível que pareça, Keuto acendia feito um abajur no formato de boneco branco de massinha e além disso, estava até esquecendo de dizer que conforme ele andava, os pés dele iam fazendo faíscas no contato com o chão, feito aqueles tênis que acendem quando a gente anda. E tem mais, quando a Mindi amassava ele, seu corpo soltava uma espécie de talco brilhante, feito purpurina que ficava um tempo ainda flutuando pelo ar. O interior da caverna era todo de pedras preciosas coloridas, com diamantes e ouro. Tudo brilhava conforme nossos amigos passavam... Lá no fundão da caverna tinha uma pedra bem grandona e, em cima dela um cajado enorme, feito um pedaço de cano azul. Keuto explicou que aquilo era um didgeridoo, o primeiro instrumento musical jamais feito no planeta terra. Esse instrumento tinha sido criado pelos aborígenes australianos e emitiam um som sagrado, capaz de mover montanhas. O pequeno boneco de massinha se aproximou da pedra grande, escalando-a e ajeitou sua boca redondinha na extremidade do instrumento, respirando em círculos, emitindo um som que parecia um monte de abelhas conversando ou mesmo um monstro gigante bocejando. Conforme ele tocava, a parede do final da caverna se movia revelando um mundo todo brilhante e azul clarinho, feito de cristais e estrelas, um mundo sem chão ou teto, parecendo um céu mesmo, mas só que de outro jeito. No meio dessa espécie de céu, flutuava o Grande Mago Azul. Mago Azul saudou os dois amiguinhos com a cabeça e abriu bem grande os braços com um sorriso acolhedor nos lábios. Mindi e Keuto não tiveram dúvidas e correram, ou melhor, flutuaram na direção dos braços fortes de Mago Azul. O abraço do Mago Azul era como um colo, uma dança, um sono bom e eles se deixaram ficar por uns instantes que pareciam eternos, no conforto daqueles braços quentes. Depois se afastaram e o Mago fez sinal para que eles se deitassem de barriga pra cima em tapetes voadores prateados que planavam naquele céu de estrelas. Nisso ele tomou nas mãos um outro instrumento daquele que era maior ainda e feito de um material transparente como cristal, emitindo sons maravilhosos, completamente diferente dos sons que Keuto fazia, com todo respeito, pensou a menina. Mesmo sem ninguém explicar, ela sabia que aquele era um momento de cura, sabia que seria curada daquela sua mania de não parar quieta, de não conseguir ir até o fim com as coisas, mania de ter medo de seus sentimentos, mania de viver agitada, de pensar demais. Sabia também que Keuto estava sendo curado da sua mania de posse, da sua dificuldade de se despedir das pessoas e do seu medo de ficar sozinho. O Mago entoou canções maravilhosas enquanto eles entravam num plano mental que era vazio de cores, onde reinava um mundo branco, brilhante e vazio de sentimentos, onde a sensação de preenchimento, de saciedade e de que tudo estava certo reinava também. Quando Mindi abriu os olhos estava deitada na madeira da casa da árvore sem árvore da sala e seu pai a chamava para almoçar: Mindi Augusta, acorda pra cuspir! Desceu as escadas de madeira meio atordoada, serena, plena e a galera da família olhou aquilo e não entendeu nada. Mas o que importa é que ela entendia tudo e se sentia extremamente grata! (homenagem ao amigo-irmão Mateus Delbem que é Mago Azul e é Keuto também!)

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Nino, o bezerro menino - Parte 4: Nino ensina a paciência dos animais

O que Nino mais gostava de ensinar aos humanos era a paciência. Mas não aquela paciência dos adultos humanos que dizem: “Tenha paciência, logo logo será hora de brincar, agora é momento sério!”, não , definitivamente não era essa a paciência que Nino queria ensinar. Aliás, dessa paciência boba e sem graça, Nino queria distância, o que ele queria era que as crianças brincassem de aprender e aprendessem a brincar, como os animais. Ah! Falávamos de paciência. Então, Nino ensinava na Escola da Roça, aquela paciência de pastar, de ficar à toa, de balançar o rabo enquanto se saboreia um capim gostosinho e saboroso. Vocês devem estar pensando que eu fiquei lelé da cuca. É lógico que Nino entendia que os humanos não tem rabo pra balançar e que eles tampouco comem capim. Mas ele ensinava com a realidade dele e mesmo assim as crianças entendiam e aprendiam que aquela paciência era uma capacidade de ficar quietinho e apreciar um por do sol, de saborear uma fruta gostosa, de olhar o movimento das abelhas produzinhdo mel e do beija flor voando ligeiro, daqui pra lá, de assistir os pensamentos pensando e se divertir com a imaginação imaginando... Era bom ter a paciência de Nino. E era bom deixar a agitação voltar e correr livre pelos campos verdes como Nino fazia.

Nino, o bezerro menino - parte 3: Os tristes tempos do avô de Nino

Nino era um bezerro feliz, tinha nascido ali mesmo, na Escola da Roça e todos os momentos da sua infância tinham sido bons. Já seu avô não podia dizer o mesmo. Ele tinha nascido em tempo antigos, quando os humanos se alimentavam de animais, na época em que os devastadores de florestas e criadores de animais confinados e seus colegas de compra e venda de carnes diziam que a carne de animais era importantíssima para a saúde dos humanos. Nunca se adoeceu tanto como naqueles tempos. Os animais eram confinados em estábulos ou em pastos cercados, comendo ração e capim, esperando a hora de tudo aquilo acabar. Eram tempos tristes para os animais. Os humanos achavam que diversão era assar carnes em churrascos e que refeição só seria boa com um bom bife no prato. O avô de Nino tinha sido salvo por um grupo de estudantes vegetarianos, que o libertaram do cativeiro e o levaram para as terras onde depois seria criada a Escola da Roça. Talvez tenha sido devido a essas históras do avô que Nino demonstrava um certo desconforto com cercas, alambrados, muros e paredes. Isso tudo causava uma aflição muito grande no coração grande de nosso amigo bezerro. Mas esse problemas de aflição com cercas era muito fácil de resolver, pois na Escola da Roça não haviam cercas ou muros, tudo era aberto e as pessoas e animais podiam circular livremente por todo canto, além disso, a escola era tão grande que tinha até uma montanha e um vale dentro dela! Quando a aflição vinha, Nino corria, livre pelas colinas verdes cobertas de florzinhas amarelas, sentindo o ar fresco entrar pelas suas narinas rosadas e tudo ficava bem de novo!

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Cride e Cróc

Era uma vez duas crianças que se chamavam Cride e Cróc. Cride era menino. Cróc era menina. Eram crianças, que, como toda criança, gostavam de fuçar, artear, brincar e rodopiar. Mas aqueles dois eram demais da conta! A avó vivia aos sobressaltos quando eles estavam por perto, de tanta arte, tanta molecagem, tanta azaração! Os primos às vezes se escondiam no porão para descansar lendo um livro ou brincando de algum joguinho, mas eles não tinham parada, era correria e invenção de moda sem fim! Ninguém sabia do que a cabeça deles era feita e nem eles mesmos sabiam até que um dia a verdade se revelou: Era uma tarde de verão. Eles estavam brincando de cavalinho numa mangueira que tinha um galhão atravessado e que dava um molejo gostoso, como se fosse um cavalo galopando. Mas, como vocês já devem ter percebido, eles não se contentavam em simplesmente cavalgar o galho com cuidado e suavidade e sim, pulavam como loucos naquele galho, com tanta força e tanta animação... Lógico que não adiantava ninguém avisar. Eles nem davam bola até a hora em que o galho quebrou, fazendo com que os meninos caíssem com a cabeça bem numa raiz dura que ficava em baixo! As duas cabeças racharam no meio e aí é que chega o momento em que a verdade se revelou... De dentro da cabeça de Cride se esparramavam pedaços de lego coloridos, carrinhos de ferro sem rodinha, bolinhas de gude, indiozinhos de forte-apache sem cabeça, boizinhos de fazendinha sem uma pata e até um peão com cordinha e tudo! De dentro da cabeça de Cróc já era diferente o que saiu: bonequinhas sem braço ou pernas, panelinhas cor de rosa sem cabo, xicrinhas azuis de florzinhas brancas sem asas, mamaderinhas de plástico, chiquinhas de prender no cabelo sem elástico, potinhos de guache seco, contas de vidro prá fazer bijuterias, batonzinho rosinha e até um cachorrinho de pelúcia descosturando! Foi engraçado prá quem passou por lá ver aquelas duas cabeças feito caixa de surpresas abertas mostrando os segredos dos meninos e das meninas do planeta de uma vez só. Sorte que o tio Flávio, que era médico cirurgião, passou por ali bem à tempo com sua maleta de costurar pessoas e deu um jeito de costurar a cabeça das crianças de volta, mas, é lógico! Antes disso teve o cuidado de consertar os brinquedos quebrados, pôs rodas nos carrinhos, braços e pernas nas bonecas e colocou tudo de volta nas cabeças ôcas das crianças que, curioso, ao voltarem a si ficaram bem mais cuidadosas. Algumas pessoas adultas têm parafusos soltos e fazem maluquices. Agora todo mundo sabe que, quando as crianças fazem maluquices é porque elas estão com uns brinquedinhos quebrados lá dentro da cabecinha delas! Qualquer coisa é só chamar o tio Flávio que virou um especialista em cabeças de crianças e sempre dá um jeito quando é preciso! (São Thomé das Letras casa do Argeu, 09/01/04 Estória inventada por causa da mania de Yannick e Bruno de subir no capô da Parati Prata.)

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

RAMPIRO - O VAMPIRO RAMPEIRO

Êta êta êta nóis, eu sou Rampiro - o Vampiro Rampeiro! Acho uma frescura essa estória de Vampiro armofadinha, bem vestido metido a artista de cinema dos firme de Róliúde (Hollywood). Eu sou eu, capote de boiadeiro, carça de cochão véio e bota de Jeca-Tatu. Eu sou é macho! Outra coisa que não tolero é essa idéia de drumi em caixão di difunto, coisa chique de vampiro de cidade grande! Com nóis aqui da roça o papo é outro, nois dorme em rede memo e antes de drumi o costume é balangar bem forte, inté a rede ir bem alto, bem alto no céu. Outro dia eu balanguei tão forte que fui parar na lua! E aí começa a estória: Intonces, cheguei naquele bagúio grande cheio de buraco que o pessoar turma chama de cratera e já dei de cara um um dragão enorme. Oceis pensa que eu fiquei cum medo? Fiquei é nada! Eu tava era morrendo de fome por conta da viagem inté a lua e já grudunhei no pescoço do tar de dragão e bebi o sangre dele. Acontece que o sangue era quente, de modo que eu fui esquentando esquentando até virá uma tocha humana, cheio de labareda pelos cabelo, nas ponta dos dedo, pelos pé! Coisa estranha sô! Enquanto isso o dragão foi esfriando, esfriando e os dente dele viraram dente de dragão vampiro e ele ficou mansinho, mansinho feito um bichim, um gatim roçando meu pé de fogo que foi tão bunito de se vê que meu coração de vampiro foi esquentando tamém e conforme o coração esquentava as labareda das ponta do corpo ia recoiendo até apagar. Foi nessa hora, nessa horinha memo qui eu peguei amor no bichinho. Aquele dragãozão, todo dengoso, roçando minhas perna, parecia inté um fióte, uma criaçãozinha da roça! Minha fome tinha passado, mas minha curiosidade não! Aproveitei a amizade co bicho dragão, muntei nele e ele ficou quétim feito burro manso e lá fomo nói cunhecê a tar de lua. Aquela história de cratera era só numa parte da lua, na outra, que os ingrêis e os miricano chama de “de darque saide ófi de múm” (the dark side of the moon – o lado escuro da lua) era linda de morre! Tinha uns lago verde, mai de um verde feito vidro, verde craro, verde água, transparente e por de drento vinha uma luiz, uma luiz que brotava lá do fundo dos lago e eu que num sô bobo nem nada e que tinha acabado de pegar fogo feito ómi tocha, resorvi mirguiá naquelas água cristalina. Foi aí que o milagre aconteceu... Ni qui o dragão i eu demo um mirgúio, aquela luiz dorada que vinha lá do fundo, subiu feito um raio e incubriu nóis feito bolha de sabão e eu senti uma coisa tão boa, uma coisa que eu já tinha sentido fazia muito muito tempo, dos tempo que eu nem era vampiro ainda. Parecia um colo de mãe, um abraço de pai, uma risada de irmão, um cafuné de vó, misturado com uma história de tia e brincadeira de amigo, tudo junto. E aquilo foi ficando grande que foi tomano conta di eu intêro inté que eu percebi que tava virando gente de novo. Quando oiei, o dragão tinha virado um bichaninho, um gatinho e ni qui nóis fumo subindo pra beira do lago, o raio foi recoiendo e nóis fomo boiano inté a prainha de água branquinha feito tapioca. A úrtima coisa que lembro foi que Nossa Senhora da Conceição, protetora das água doce, apareceu bem no meio do lago, veio inté nóis, estendeu a mão e abençoou nóis. Enquanto isso, feito uma montanha bitela por detráis do lago, São Jorge erguia uma espada pro alto, enquanto seu cavalo rilinchava empinando os casco da frente pra cima. Quando acordei,estava na minha rede, com um gatinho maiado drumindo na minha barriga e minha mãe chamando lá da cozinha, pra eu ir comer tapioca quentinha. Verdade? Mintira? Imaginação? Realidade? Só Deus sabe... (essa história foi criada para/e com meu sobrinho Caio Zurita Fernandes, lá pelos anos de 1997 ou 1998 - Caio falava "Rampiro" ao invés de Vampiro e adorava balançar bem forte na rede)

Adauto e o tubarão – uma história para meninos adolescentes

(ilustração de Alexandre Mello - São Thomé das Letras) Era uma vez um menino chamado Adauto. Ele era marrom da cor de chocolate amargo, mas ao contrário do chocolate, Adauto era um doce de menino! Adauto vivia com sua mãe numa casinha à beira-mar, sua vida era brincar de bola, pular ondas, fazer castelos de areia, subir em árvores. Quando a noite chegava, ele e seus amigos se punham a caçar vaga-lumes, fazer fogueirinhas de papel, olhar estrelas cadentes e contar histórias e “causos” de assombração. Eles adoravam inventar brincadeiras e sua mãe achava tudo isso muito bom. À direita da praia onde eles moravam, havia um morro que separava a praia deles da outra praia mais ao norte e a única coisa que sua mãe pedia, era que eles não fossem na ponta da pedra A ponta da pedra era uma pedra grande que dava de frente pro alto-mar e era lá onde viviam os tubarões. Tinha sido naquele local que o pai de Adauto havia desaparecido quando ele era bem pequenininho. Cada vez que a criançada saía pra brincar, a mãe avisava: - Nada de ir na ponta da pedra, heim? Eles obedeciam e corriam, pulavam e nadavam pra lá e pra cá. Num certo dia, quando Adauto já não era mais criança, mais ainda não era grande também. Naquela fase da vida em que a cabeça vira um turbilhão, feito onda da praia em dia de ressaca, nosso amigo resolveu que já era hora de ir até a ponta da pedra. Só um pouquinho, só espiar, a mãe nem ia saber. E lá foi ele, sozinho, pra ponta da pedra. Sentou-se na pedra quente e ficou ali a cismar, a olhar o mar. Fez isso um dia, dois, uma semana, três semanas. A mãe perguntava onde ele tinha ido e cada dia ele inventava uma mentirinha diferente: fui na casa do Zeca, fui no campinho, fui apanhar goiaba, fui no riacho da montanha. E foi num dia de sol forte que ele teve a idéia de mergulhar no mar. “Acho que essa história de tubarão é invenção da minha mãe. Vai ver que meu pai fugiu e não quis mais voltar e ela fala que foi tubarão que pegou. Faz um tempo que eu to vindo aqui e até agora não vi nenhum sinal de tubarão” pensou o menino. Não dá pra saber se ele pensou isso sozinho ou se ele “foi pensado”... Sei lá, às vezes as más idéias estão flutuando pelo ar e a gente passa embaixo bem na hora! Só sei que ele respirou fundo e “tchigum!” mergulhou nas águas verde-azuladas daquele mar fresquinho. E mais semanas se passaram, e mais mergulhos Adauto deu, naquelas águas proibidas, sempre inventando uma mentirinha quando a mãe perguntava de seu paradeiro. Mas foi numa tarde cinza, sol escondido atrás das nuvens, ventinho batendo de leve na nuca, que o menino descobriu que a sorte às vezes cansa de estar sempre ao lado de uma criança abusada... Adauto mergulhou como sempre e ficou boiando de barriga pra cima, quando sentiu seu coração palpitar mais forte. Tum, Tum, Tum, Tum! Assim, do nada! Ele achou estranho e parou de boiar para olhar em volta. Qual não fui sua surpresa ao ver, vindo em sua direção, ainda em uma distância razoável, a barbatana de um tubarão! Ficou tão assustado que começou a se debater e foi afundando no mar. Foi aí que aconteceu a coisa mais estranha de todas, apareceu do nada um homem de bigode e sunga preta, puxou o menino pra cima e falou: - Nade meu filho, não se entregue. Sua mãe ainda vai precisar muito de você, você tem toda uma vida pra viver, vamos, coragem, nade!!! Adauto, sem entender nada, saiu nadando a toda velocidade que conseguia até alcançar a pedra, mas não foi rápido o bastante, quando estava pegando impulso pra subir na pedra, o tubarão o alcançou e abocanhou sua perna direita na altura do joelho. .O menino foi se arrastando, pegou sua camiseta e o canivetinho que sempre levava consigo, cortou uma babosa que nascera ali onde a pedra encontrava com a mata, cobriu todo o ferimento com a parte interna da babosa, amarrou bem a camiseta, pegou um pedaço de pau, fez uma muleta e voltou pra casa, dolorido, envergonhado, arrependido... Ao chegar na porta de casa, o menino não resistiu a tamanho esforço e caiu desfalecido bem na soleira. A mãe ouviu o ruído e ao abrir a porta, deparou-se com o filho desmaiado, com a perna faltando e já deu um jeito de levá-lo correndo ao hospital para costurar o corte. Quando ele contou toda a história, ela chorou mais ainda. O homem que ele descrevera, bigodudo, usando aquela sunga preta era seu pai! Como eles viviam afastados de tudo, seus pais nunca tinham tirado nenhuma foto na vida e o menino não tinha lembrança do semblante de seu pai. “Foi um milagre!” – exclamou a mãe banhada em lágrimas. Apesar de estar sem a perna, Adauto deu graças a Deus por estar vivo, ele tinha planos para o futuro e sabia que a mãe não viveria sem ele. Hoje Adauto é um homem grandão, com os cabelos feito cordas, trançados em “dread”. Ele se mudou pra São Thomé das Letras e vive por lá, andando de muletas no meio das pedras, conversando com todo mundo, contando sua história para os moleques “atentados” que às vezes se esquecem de tomar cuidado com os “maus pensamentos” e as “más idéias” que às vezes flutuam pelo ar... (Adauto na verdade, perdeu a perna após ter sido vítima de uma bala perdida numa favela de São Paulo. Hoje ele usa uma prótese na perna e só manca um pouco, nem se nota que ele não tem perna. Essa história foi inventada por mim em São Thomé das Letras, lá pelo ano 2004 ou 2005, quando eu contava histórias pras crianças que viviam em torno das pedreiras bem perto da pirâmide.)

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

VIGIA, O VIRGÍLIO

Vigia era apenas um filhote, quando caiu do ninho no chão do trabalho do Reto, que o encontrou meio desfalecido. O ninho estava desfeito, Reto pensou que talvez algum acidente pudesse ter ocorrido pra mãe abandonar assim o filhote e, se compadecendo da pequena ave, sem lenço, sem documento, sem ninho, nem lar, levou-o para a República Morritos numa manhã de dezembro de um ano seco, sem chuvas. Os meninos se revezavam nos cuidados com o pombinho, mas quando eles dormiam, Vigia, o Virgílio, vigiava, virgiliava do verbo virgiliar, estar em estado de virgilia, acordado, alerta, atento e leal. Quando eles acordavam, Virgilio, ops, Vigia, podia dormir (mas nem por isso passava a se chamar Dormilio). Mas ele não estava satisfeito. Ele queria vigiar mais, muito mais, o tempo todo, por toda a parte. Queria estar perto de cada menino na rua, na UNESP, nas cidades onde eles partiriam de férias. Vigia achou que seu pequeno corpo de pássaro o estava limitando e matutava uma solução. O Natal chegaria e, apesar de ter ganho uma linda touca típica xadrez, Vigia suspirava. Pensava que com o Natal viria a separação. Como faria Virgilio Vigia da Silva para virgiliar cada um dos meninos, sendo que eles moravam em lugares tão diferentes? Mesmo os ubatubanos, cada um num ponto da cidade... Foi quando passou um anjo. Sabemos muito bem que os anjos ouvem nossos pensamentos e não foi diferente com nosso amigo pombo: o anjo ouviu Vigia e propôs uma solução: sob o pretexto de um atropelamento, ele abandonaria seu corpo de penas e passaria a pertencer ao mundo dos “Pássaros Eternos Protetores dos Unespianos” que era composto por todos os pássaros que já tinham sido cuidados pelos alunos da universidade. A primeira tentativa foi mal sucedida... Certo dia, enquanto Txão dormia, Vigia foi passo a passo até chegar no meio fio, na esperança de ser atropelado. Txão acordou e notou que o pequeno pombo não estava mais lá. Acostumado a resgatar seus cães que adoravam fugir, ainda tonto de sono, fez o que lhe parecia óbvio: pegou as chaves do carro e arrancou em disparada procurando Vigia, o Virgilio pelas calçadas do bairro indo e vindo pelos entornos da 32 A. Quando retornou à casa, desanimado e derrotado pela empreitada sem sucesso, encontrou Vigia sentadinho no vão da sarjeta, exatamente no local onde Txão havia deixado o carro estacionado. Txão respirou aliviado dando graças por não ter atropelado Vigia e o pássaro lamentava não ter conseguido ser atropelado e se deixou levar por Txão para o interior da casa. O anjo voltou e, juntos pensaram em uma outra solução: o anjo convocaria uns colegas bons de teletransporte e, sob o pretexto de uma infecção na patinha direita, aceleraram a passagem de Vigia para o mundo dos invisíveis. Os meninos não entenderam no início e ficaram muito triste, mas depois dormiram, sonharam com Vigia e entenderam tudo e ainda hoje, quando percebem uma pena cinza voando, do nada, no ar eles sorriem sabendo que é o Passaranjo Vigia, que vigilante, virgilianamente, acabou de passar!!! (Homenagem aos meninos da República Morritos da Unesp de Rio Claro e ao pombo Vigia, o Virgílio)

A arma secreta de Hulk

Um dia , Hulk, depois de muitas aventuras, chegou cheio de fome numa cidade e se hospedou no hotel mais simpático que encontrou. No restaurante do hotel o prato principal era couve-flor, repolho e feijão e Hulk comeu muito, demais da conta. Logo em seguida, o hotel foi invadido por bandidos que queriam roubar o caixa e quando Hulk percebeu, eles já estavam amarrando a recepcionista. Hulk ficou furioso e foi virando Hulk, porque, na verdade ele estava normal, sem ser verde, quando chegou ao hotel. À medida em que foi virando, foi fazendo força, e sua camisa foi rasgando, ele não pôde segurar e soltou um punzão daqueles, provocando uma nuvem de fumaça verde e malcheirosa que fez com que os bandidos desmaiassem pelo chão. Hulk, ficou meio sem graça, mas não tinha sobrado ninguém consciente para reparar, até a recepcionista estava caída, amortecida pelo impacto do pum verde. Hulk amarrou os bandidos e deu um copão de leite para desintoxicar a recepcionista que acordou um pouco tonta, já agradecendo Hulk por tê-la salvo daqueles malvados. A arma secreta de Hulk foi descoberta por acaso nesse dia e até hoje ele a usa dependendo do que come. Mas é um segredo que Hulk não conta prá ninguém. O segredo da grande fumaça verde. FIM (Chácara Cavalinho Pucareno, janeiro de 2004 Estória inventada para entreter Yannick e Bruno).

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Nino, o bezerro menino - parte 2 - O olhar raio X da alma

Como já contei antes, Nino era um bezerro com alma de menino e no dia em que o conheci, tinha acontecido uma coisa estranha comigo que fez com que eu só visse a alma das pessoas e dos animais. Como o bezerro Nino tinha alma de menino, eu olhava e via um menino. Menino assim, de cabelos negros, short e camiseta, menino engraçado, menino agitado, menino esperto e inteligente, menino. Nino me mostrou seus amigos. Haviam crianças humanas, que iriam crescer e virar adultos um dia e haviam crianças animais, que seriam sempre crianças, mas com aparência animal e só as pessoas agraciadas com o olhar raio x da alma poderiam ve-los. Não sei se tinha sido a Paula, a Dani ou o Pepe, talvez a Bai ou a Julia, (que nem apareceram no sonho mas que fazem parte desta história), os responsáveis pelo meu novo olhar de raio X da alma, mas o importante é que eu tinha esse olhar e podia ver tudo e além disso, podia entender tudo também. Entendi que os animais não são seres menos evoluídos que os humanos, mas que são seres especiais que escolheram essa forma pra poder ver coisas que os humanos não conseguem ver. E era por isso, que Nino, o pato, o bode, os pintinhos de dona galinha e o bem te vi com o beija flor não eram alunos e sim professores daquela escola muito legal de boa. Haviam crianças que eram professores e também haviam crianças e animais que eram só alunos. Eu pensei que apesar de ter aparência adulta, minha alma era de criança, talvez até uma criança esquilo e que eu gostaria de poder começar tudo de novo e me tornar uma aluna daquela escola muito legal de boa. Penso que o Luan, o Nando, o Francisco e o Enrico seriam bons professores para aquela escola e que a Bê iria preferir ser aluna, pra brincar na terra e na água e fazer lições divertidas sem ter muito trabalho. Já o Frederico, irmão mais novo (só que mais velho) de Francisco, com certeza fazia parte do conselho dos anciãos, responsáveis pelas decisões mais importantes da escola e o Nayan seria como um monge, responsável pelos ensinamentos místicos e meditações.