sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Nino, o bezerro menino - Parte 6: Tata e as composteiras germinadoras

Tata era uma menina de 7 anos, trabalhadeira como ela só. Ela não aparentava, mas tinha uma força sobrenatural como se fosse um superpoder. Manejava enxada, enxadão, pá e cavadeira como um homem adulto (dos fortes) e o que ela mais gostava era ensinar a molecada a melhor forma de aproveitar as sobras de comida, as cascas de frutas, as podas do jardim para produzir o melhor dos adubos que germinaria as mais saborosas delícias vindas da horta e do canteiro de ervas.
Além de transformar lixo em  adubo, Tata transformava também tristeza em alegria, doença em saúde, depressão em entusiasmo, preguiça em agitação. Ela tinha raios de luz nas palmas das mãos e com esses raios tudo era possível, feito mágica, feito bênção, feito cura.
O sonho de Tata era de que todos os habitantes de todas as cidades do mundo aprendessem a fazer o mesmo que ela fazia, que todos soubessem como transmutar a energia do lixo em energia de luxo, que as pessoas se curassem umas às outras, que o planeta se curasse e vibrasse numa frequência mais leve, mais limpa, mais verde, mais clara.

Tata já tinha ajudado Nino por ocasião de uma pata torcida e Nino era eternamente grato àquela menina, tão nova, tão velha...

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Nino, o bezerro menino – Parte 5: A avó Estrela e o avô Fubá e a questão da carne e do leite


Nino gostava muito de visitar a vó Estrela e o vô Fubá no sítio que ficava ao lado da Escola da Roça. Assim como o outro avô de Nino, vó Estrela tinha muitas histórias pra contar. Umas engraçadas e divertidas, outras interessantes e outras tristes também.
Para melhor ensinar seus alunos da Escola da Roça, Nino pedia sempre que a vó Estrela contasse dos tempos em que os humanos, além de se alimentarem da carne dos animais, bebiam também seu leite. Principalmente o das vacas. Nos tempos muito antigos isso era feito de um jeito tranquilo, as pessoas tinham suas vaquinhas e iam até o estábulo pela manhã para retirar um pouco de seu leite com muito cuidado o que não causava problema nenhum nem às mamães vacas e tampouco aos seus filhos bezerros. Mas depois, veio o tempo da ganância, o tempo das cidades grandes com pessoas amontoadas em edifícios e casas coladas umas às outras, sem quintais. Nesse tempo, as pessoas moravam em espécies de caixas de cimentos postas umas sobre as outras e trabalhavam em outras caixas. Não tinham terra e nem tempo. Diziam que precisavam de muita carne e muito leite para poder trabalhar mais e mais.
Foram tempos de alergias, de problemas de estômago e intestino. Foram tempos de muitas doenças e ninguém se dava conta. O pior disso tudo era o jeito que esse leite era retirado das vacas, por meio de máquinas e os bezerros, coitados, era melhor nem falar nada sobre isso.
Eram tempos difíceis para os animais. Até mesmo os cães, que eram tratados como reis nos apartamentos. Sofriam de muita solidão e não gostavam de lembrar da forma que eram reproduzidos em canis especializados, vendidos a preço de ouro.

Eram tempos estranhos. Nino ficava um pouco triste ao ouvir tudo aquilo, mas achava importante que as crianças soubessem o que seus antepassados haviam feito para não repetirem o erro.

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

NATY QUÉLI NEVE (Drizotti)

Naty era uma menina muito linda. Seu rosto parecia uma pintura, um afresco da Capela Sistina na Itália. Ela vivia rodeada de amigas e amigos numa cidade pacata de um país que se dizia abençoado por Deus e bonito por natureza. Ela concordava, achava o país bonito, mas acreditava parcialmente na tal bênção de Deus, pois sabia que seu povo era muito sofrido e muito trabalhador também. Mas ela estava cansada. Cansada da mesmice, do mesmo trabalho, das mesmas festas, do mesmo sol. Ela queria neve, não aguentava mais o calor, os trópicos, o marasmo, a falta de chuva, a falta de frio. E foi assim que ela resolveu ir pra Boston, uma cidade dos Estados Unidos onde neva muito, onde faz muito frio no inverno.
Chegou lá toda animada, brincou na neve, sentiu a neve, provou a neve, tirou fotos na neve. Ela adorava a neve! Ela amava a neve! Meu Deus, como é bom ter neve!
Acontece que Deus, que na verdade não tem aquela cara brava das pinturas bíblicas e, ao contrário, é um cara gozador e fanfarrão, ouviu muito bem as palavras da menina e resolveu brincar de Deus, ops, ou melhor, brincar de fazedor de neve. E mandou ver! Mandou de presente pra Naty a maior nevasca da história!
Era neve que não acabava mais, neve na porta, neve no carro, neve no telhado, neve até o joelho, era tanta neve que na tarde de terça-feira quando ela saiu de casa, a neve estava até o pescoço!
E Naty dizia: “Estou com neve até o pescoço!”. E o pessoal dizia: “Tá reclamando?” e ela respondia: “Não! Tô adorando! Estou com neve até a altura do pescoço! Graças a Deus!”
E não é que era graças a ele mesmo? Deus tem dessas...

domingo, 25 de janeiro de 2015

Mindi e o Mago Azul - Parte final: Os marcianos marinhos e a mensagem do Mago Azul

Atracaram no cais de marte entre borboletas flutuantes e Mindi pôde perceber que os corpos pelados daqueles marcianos tinham era de um azul escuro da cor do sofá da sala de sua casa. Seus olhos eram bem pequenininhos e bem juntinhos, próximos a uma suave elevação que vinha no lugar do nariz nosso de cada dia nos dai hoje. (Desculpaí, mas é que Mindi tinha mania de colocar trechos de músicas, de poemas e de orações em seus pensamentos sobre o mundo). A boca deles era bem pequenininha também, mas mesmo assim dava pra notar que eles esboçavam um sorrisinho tímido com a ponta da língua pra fora, mas só um pouquinho... a ponta da língua deles era rachada no meio, que nem cobra, pensou a menina, que não sentiu nem um pingo de medo, pois eles tinham um jeito bem bonzinho de ser e transmitiam uma paz imensa. Eles eram de poucas palavras e faziam sinais mostrando o interior da ilha ou continente ou planeta marte. Nossos amigos os seguiram e eles entraram em uma caverna que subia em forma de toboágua de trás pra frente. Eles foram subindo subindo, escorando nas paredes de pedra que nem aquela brincadeira de subir em batente de porta. No final desse túnel ascendente havia luz e foi pra lá que eles seguiram. Keuto, todo animado, espalhando pozinho brilhante por onde passava e conforme fazia esforço pra subir, soltava uns punzinhos de purpurina que tinham cheiro de talco de vó. Ao chegar lá em cima, qual não foi a surpresa de ambos ao se deparar com o Mago Azul, em todo seu esplendor!! O Mago abraçou os marcianos fazendo um pequeno cafuné nas carecas azul marinho deles e logo em seguida deu aquele abraço maravilhoso neles! Em seguida, explicou que na verdade, tudo era uma coisa só. Que no plano azul do Mago Azul não haviam separações de planetas ou países ou raças ou nível econômico, político,cultural, blá blá blá... “Tudo é uma coisa só, meus queridos, tudo está interligado pelas redes do amor universal!” Mindi sentiu-se transbordar de alegria e Keuto emanava uma luz branca opalescente mais brilhante do que nunca com explosões de purpurina feito mini rojões saindo da sua cabecinha branca! “Aí sim! Agora tudo faz sentido!” pensou Mindi enquanto espreguiçava afastando o edredon para o lado... “Ops! Cadê o Keuto? Cadê os marcianos? Cadê o Mago Azul?” Mindi estava novamente em seu quarto, deitada na sua cama e não sabia se tinha sonhado tudo aquilo ou se tudo aquilo é que tinha sonhado ela... FIM

Mindi e o Mago Azul - Parte 3: Keuto em mares nunca dantes navegados

Mindi estava deitada em sua cama descansando do mundo das engrenagens quando ouviu o som do didgeridoo do Keuto e já começou a rir... Dessa vez Keuto fez um som de monstro marinho, com uns glup glups pelo meio. Ela não entendia como ele fazia aquilo e achava tudo isso bem engraçado! Ela desceu rapidamente a escadaria que levava para a sala e foi seguindo o som até a varanda. No canto esquerdo da varanda havia um laguinho com peixes vermelhos e plantas aquáticas e era lá mesmo que Keuto tinha sentado em posição de lótus (feito Buda ou Yogue) pra tocar seu didgeridoo). Keuto estava bem compenetrado e ficou até meio bravo ao ver que a menina ria de seus sons. Ele se achava tocando aquilo e queria que todos ficassem sérios, admirando seu trabalho. Mas Mindi não estava nem aí e ria muito daqueles sons marinhos. Além disso a cara do Keuto estava engraçada demais! Seu formato de massinha já adquirira os contornos de uma roupa de monge e ela sabia que ele era levado da breca e que de monge não tinha nada. Quanto mais Keuto se irritava, mais engraçados ficavam os sons! Agora, por exemplo, parecia uma discussão de baleias sobre o sentido da vida no fundo do mar. Mindi fechou os olhos de tanto rir e quando abriu, estava em alto mar com Keuto, sendo levada por uma caravela como aquelas que os descobridores das américas usavam. Só que essa embarcação deles tinha por velas, borboletas coloridas e sua tripulação era toda composta por insetos gigantes! O capitão era uma joaninha de chapéu de pirata, haviam libélulas, louva a deus, grilos, borboletas menores de uma cor só e até uma barata que varria o convés (“ai que nojo!”, pensou Mindi, mas logo depois fez um esforço e se libertou de seu preconceito contra as baratas). Keuto estava radiante, ele e Mindi estavam naquele lugar lá no alto, que parece um cesto, de onde os piratas observam ao longe pra ver se vem vindo mais alguém no alto mar. De lá eles viam o barco todo e as quatro direções de horizonte das águas salgadas que os rodeavam. De repente avistaram algo ao longe: “Terra à vistaaaa!” gritou Keuto rapidamente, com medo que a menina gritasse primeiro (ele queria sempre ser o primeiro em tudo, Mindi pensou que era mais uma coisa a ser curada pelo Mago Azul). Os insetos ficaram alvoroçados e conforme eles se aproximaram daquelas terras, Mindi pôde se dar conta de que na verdade, não estavam no planeta Terra e sim em águas de Março, ops, águas de Marte. Em pé sobre a pedra do cais, alguns marcianos de corpo escuro e esguio faziam sinais com uma bandeira. No rasinho e nas pedras, algumas borboletas pousavam mexendo levemente as asas. (continua no capítulo 4)

Mindi e o Mago Azul - parte 2: Keuto e as engrenagens

Mindi almoçou quieta, em estado de graça. Dava uns suspiros de vez em quando, sempre com um sorrisinho de canto de boca. Os adultos olhavam curiosos, mas resolveram não comentar, afinal, “Time que tá ganhando não se mexe” e era bom passar o dia sem aquele fuçadeira fuçando em tudo. Depois do almoço, Mindi foi para o quintal espiar as galinhas. Ela gostava das galinhas, tinha a impressão de que se comunicava perfeitamente com elas e as galinhas gostavam dela também. Quando ela se aproximava, as galinhas vinham ao seu redor e ficavam encarando a menina, com aqueles olhos que olha sem ver, de galinha pescoceira ciscadeira, feito Mindi fuçadeira. Ao lado do galinheiro tinha um quartinho de ferramentas, Mindi já estava meio que pressentindo e, de repente, dito e feito! O facho de lanterna relampejou dentro do quartinho e Mindi já sabia de antemão que seria só entrar pra reencontrar seu amigo Keuto. “Mindi não Mim, Mindi de ninguém!” Foram as primeiras palavras do homenzinho branco ao vê-la. Ele também estava curado, sabia que Mindi não era só dele. Entendera que Mindi não era de ninguém. A menina sorriu satisfeita. Já estava com saudades daquele branquelinho carinhoso! Keuto fez um sinal e Mindi se aproximou do cantinho escuro de onde ele tinha surgido. “Vem Mindi, vem ki!” E lá se foi Keuto pra dentro de uma caixa velha de ferramentas. Mindi não teve dúvidas e seguiu o pequenino, enquanto seu corpo encolhia novamente. Passaram no meio de um bosque de alicates, chaves de fendas, parafusos e martelos e chegaram num local cheio de engrenagens, parecendo o filme do Charles Chaplin, Tempos Modernos! Keuto estava totalmente em casa, andava pelas engrenagens feito equilibrista de circo e Mindi foi fazendo o que podia para segui-lo. De engrenagem a engrenagem, chegaram numa caldeira enorme, com uma fornalha feito forno de pizza só que grande, só que de metal, só que com muito carvão e Mindi percebeu que os carvões eram trazidos por besouros pretos, daqueles que de vez em quando viram de ponta cabeça e não conseguem mais desvirar, feito fuscas capotados. Os tais besouros tinham uma espécie de bagageiro nas costas e vinham em fila trazendo os tocos de carvão para a caldeira. Conforme a caldeira borbulhava iam brotando eletrodomésticos que saíam de cima dela por uma esteira que conduzia a um porão onde caminhões de várias lojas vinham buscar. Mindi viu televisões, liquidificadores, aparelhos celular, computadores, tablets, etc, tudo saindo daquele lugar estranho e quente, movido pelo trabalho incansável dos besouros e pensou que o mundo das tecnologias era bem estranho mesmo. Keuto estava orgulhoso, tinha maços de dinheiro nas mãos. Mindi reparou que eram notas chinesas e coreanas. Keuto guardava tudo num bauzinho que já estava transbordando de tantas notas que mal fechava a tampa. O mini massinhudo teve que sentar em cima da tampa do baú para poder, finalmente, fecha-lo e passar o cadeado. A chave ele engoliu, sabe-se lá como faria para recuperá-la mais tarde... Mindi não gostou muito desse mundo, pensou que preferia mais o mundo do Mago Azul, mas achou interessante a visita e voltou correndo pra caixa de ferraementas, quartinho, galinheiro, casa sentindo-se muito cansada com aquele passeio inusitado entre as engrenagens do mundo.

sábado, 24 de janeiro de 2015

Mindi e o Mago Azul - Parte 1: Mindi conhece Keuto e o Mago Azul

Mindi era uma menininha muito pequenininha e muito serelepe também. Gostava de fuçar em tudo, até onde não era chamada. Os adultos sempre diziam: - Pare de fuçar onde não é chamada, Mindi! Mas Mindi não estava nem aí. Uma vez ela tinha ouvido um pedaço de música que dizia que era preciso pedir licença mas nunca deixar de entrar e às vezes ela sentia uma licença no ar, nem pedia e já entrava, já fuçava, já ia descobrir coisas com seus olhos, com seus ouvidos, com suas mãos, com seu coração. E foi numa dessas fuçações que Mindi descobriu o portal que a levaria até o Mago Azul. Mas isso já é uma outra história... *** Foi numa manhã de domingo, de um domingo ensolarado. Batia um ventinho gostoso, os adultos preparavam o almoço na grande casa da família. Vale aqui explicar que a família de Mindi era bem grande. Eles moravam todos perto uns dos outros e tinha a casa grande, onde eles se reuniam aos domingos para cozinhar juntos, rir e tomar um aperitivo de azeitonas verdes, queijo meia cura com azeite e orégano e uma cervejinha bem geladinha enquanto cozinhavam. Mindi fuçadeira, fuça, fuça e sobe na escadinha de madeira que levava para a parte de cima da sala, era como uma casa de árvore só que dentro e sem árvore. Ela gostava desse lugar, às vezes até dormia lá, enroladinha num colchonete, feito cachorro dengoso. Naquela manhã, logo que chegou ao último degrau da escada, Mindi notou que tinha alguma coisa estranha, diferente e já foi ficando curiosa. Observou tudo com atenção. Tudo parecia estar no seu lugar, só que não, havia algo a mais, algo que não se via com os olhos, algo que se sentia sem ver nem tocar... A menina resolveu então se sentar no piso de tábuas de madeira e fechar os olhos para “captar” melhor o que não se podia ver. Bem de leve, como se não fosse isso, ela sentiu como que um roçar de asa de borboleta no seu rosto. Abriu os olhos e não viu nada. Fechou os olhos novamente e sentiu um toque leve, quente nas costas de sua mão esquerda. Mindi era canhota e tinha muita sensibilidade nessa mão. Abriu novamente os olhos e nada! Foi então que ouviu uma risadinha e, mesmo de olhos fechados pôde notar um clarão de lanterna vindo do canto da estante. Dessa vez não tinha como negar, abriu os olhos e agachou-se procurando o lugar de onde tinha vindo o facho de luz. E lá estava ele. Aquela coisinha engraçada, meio leitoso, meio transparente, como se fosse feito de massa de modelar. Pois é! Depois ela soube que aquele era o guardião do portal do mago. Ele era uma espécie de boneco de massinha branca mesmo e se chamava Keuto. Logo que conheceu a menina já se sentiu amigo íntimo e, consequentemente, (pra sua lógica de massinha), dono dela. Keuto apontou para uma brecha entre as madeiras da estante e fez sinal para que a menina o seguisse. Misteriosamente, Mindi sentiu todo seu corpo encolher e quando deu por si, já tinha atravessado a fenda da estante, seguindo de perto, os passos do pequenino. Keuto falava usando palavras soltas e conjugando as frases de um modo só seu. Queria que ela fosse só dele e começou a repetir sem parar “mim mindi, mim mindi, mim mindi”, o que, na sua linguagem, significava “A Mindi é só minha”. Mindi achou aquilo tudo bem divertido, não se importava com sentimentos de posses ou de desprezo, pois ela era ela e como já dissemos, ela não estava nem aí! Abraçou o Keuto até amassá-lo (massinha era pra amassar, né?), só que não muito para que ele não perdesse sua forma de boneco gorduchinho e seguiram de mãos dadas pela trilha florida que levava a uma caverna. Na entrada da caverna Mindi sentiu uma pontinha de medo, mas Keuto logo acendeu e tudo se iluminou. Então, por incrível que pareça, Keuto acendia feito um abajur no formato de boneco branco de massinha e além disso, estava até esquecendo de dizer que conforme ele andava, os pés dele iam fazendo faíscas no contato com o chão, feito aqueles tênis que acendem quando a gente anda. E tem mais, quando a Mindi amassava ele, seu corpo soltava uma espécie de talco brilhante, feito purpurina que ficava um tempo ainda flutuando pelo ar. O interior da caverna era todo de pedras preciosas coloridas, com diamantes e ouro. Tudo brilhava conforme nossos amigos passavam... Lá no fundão da caverna tinha uma pedra bem grandona e, em cima dela um cajado enorme, feito um pedaço de cano azul. Keuto explicou que aquilo era um didgeridoo, o primeiro instrumento musical jamais feito no planeta terra. Esse instrumento tinha sido criado pelos aborígenes australianos e emitiam um som sagrado, capaz de mover montanhas. O pequeno boneco de massinha se aproximou da pedra grande, escalando-a e ajeitou sua boca redondinha na extremidade do instrumento, respirando em círculos, emitindo um som que parecia um monte de abelhas conversando ou mesmo um monstro gigante bocejando. Conforme ele tocava, a parede do final da caverna se movia revelando um mundo todo brilhante e azul clarinho, feito de cristais e estrelas, um mundo sem chão ou teto, parecendo um céu mesmo, mas só que de outro jeito. No meio dessa espécie de céu, flutuava o Grande Mago Azul. Mago Azul saudou os dois amiguinhos com a cabeça e abriu bem grande os braços com um sorriso acolhedor nos lábios. Mindi e Keuto não tiveram dúvidas e correram, ou melhor, flutuaram na direção dos braços fortes de Mago Azul. O abraço do Mago Azul era como um colo, uma dança, um sono bom e eles se deixaram ficar por uns instantes que pareciam eternos, no conforto daqueles braços quentes. Depois se afastaram e o Mago fez sinal para que eles se deitassem de barriga pra cima em tapetes voadores prateados que planavam naquele céu de estrelas. Nisso ele tomou nas mãos um outro instrumento daquele que era maior ainda e feito de um material transparente como cristal, emitindo sons maravilhosos, completamente diferente dos sons que Keuto fazia, com todo respeito, pensou a menina. Mesmo sem ninguém explicar, ela sabia que aquele era um momento de cura, sabia que seria curada daquela sua mania de não parar quieta, de não conseguir ir até o fim com as coisas, mania de ter medo de seus sentimentos, mania de viver agitada, de pensar demais. Sabia também que Keuto estava sendo curado da sua mania de posse, da sua dificuldade de se despedir das pessoas e do seu medo de ficar sozinho. O Mago entoou canções maravilhosas enquanto eles entravam num plano mental que era vazio de cores, onde reinava um mundo branco, brilhante e vazio de sentimentos, onde a sensação de preenchimento, de saciedade e de que tudo estava certo reinava também. Quando Mindi abriu os olhos estava deitada na madeira da casa da árvore sem árvore da sala e seu pai a chamava para almoçar: Mindi Augusta, acorda pra cuspir! Desceu as escadas de madeira meio atordoada, serena, plena e a galera da família olhou aquilo e não entendeu nada. Mas o que importa é que ela entendia tudo e se sentia extremamente grata! (homenagem ao amigo-irmão Mateus Delbem que é Mago Azul e é Keuto também!)