
Mindi era uma menininha muito pequenininha e muito serelepe também. Gostava de fuçar em tudo, até onde não era chamada.
Os adultos sempre diziam:
- Pare de fuçar onde não é chamada, Mindi!
Mas Mindi não estava nem aí. Uma vez ela tinha ouvido um pedaço de música que dizia que era preciso pedir licença mas nunca deixar de entrar e às vezes ela sentia uma licença no ar, nem pedia e já entrava, já fuçava, já ia descobrir coisas com seus olhos, com seus ouvidos, com suas mãos, com seu coração.
E foi numa dessas fuçações que Mindi descobriu o portal que a levaria até o Mago Azul. Mas isso já é uma outra história...
***
Foi numa manhã de domingo, de um domingo ensolarado. Batia um ventinho gostoso, os adultos preparavam o almoço na grande casa da família.
Vale aqui explicar que a família de Mindi era bem grande. Eles moravam todos perto uns dos outros e tinha a casa grande, onde eles se reuniam aos domingos para cozinhar juntos, rir e tomar um aperitivo de azeitonas verdes, queijo meia cura com azeite e orégano e uma cervejinha bem geladinha enquanto cozinhavam.
Mindi fuçadeira, fuça, fuça e sobe na escadinha de madeira que levava para a parte de cima da sala, era como uma casa de árvore só que dentro e sem árvore. Ela gostava desse lugar, às vezes até dormia lá, enroladinha num colchonete, feito cachorro dengoso.
Naquela manhã, logo que chegou ao último degrau da escada, Mindi notou que tinha alguma coisa estranha, diferente e já foi ficando curiosa. Observou tudo com atenção. Tudo parecia estar no seu lugar, só que não, havia algo a mais, algo que não se via com os olhos, algo que se sentia sem ver nem tocar...
A menina resolveu então se sentar no piso de tábuas de madeira e fechar os olhos para “captar” melhor o que não se podia ver. Bem de leve, como se não fosse isso, ela sentiu como que um roçar de asa de borboleta no seu rosto. Abriu os olhos e não viu nada. Fechou os olhos novamente e sentiu um toque leve, quente nas costas de sua mão esquerda. Mindi era canhota e tinha muita sensibilidade nessa mão. Abriu novamente os olhos e nada! Foi então que ouviu uma risadinha e, mesmo de olhos fechados pôde notar um clarão de lanterna vindo do canto da estante.
Dessa vez não tinha como negar, abriu os olhos e agachou-se procurando o lugar de onde tinha vindo o facho de luz. E lá estava ele. Aquela coisinha engraçada, meio leitoso, meio transparente, como se fosse feito de massa de modelar.
Pois é! Depois ela soube que aquele era o guardião do portal do mago. Ele era uma espécie de boneco de massinha branca mesmo e se chamava Keuto. Logo que conheceu a menina já se sentiu amigo íntimo e, consequentemente, (pra sua lógica de massinha), dono dela.
Keuto apontou para uma brecha entre as madeiras da estante e fez sinal para que a menina o seguisse. Misteriosamente, Mindi sentiu todo seu corpo encolher e quando deu por si, já tinha atravessado a fenda da estante, seguindo de perto, os passos do pequenino.
Keuto falava usando palavras soltas e conjugando as frases de um modo só seu. Queria que ela fosse só dele e começou a repetir sem parar “mim mindi, mim mindi, mim mindi”, o que, na sua linguagem, significava “A Mindi é só minha”.
Mindi achou aquilo tudo bem divertido, não se importava com sentimentos de posses ou de desprezo, pois ela era ela e como já dissemos, ela não estava nem aí! Abraçou o Keuto até amassá-lo (massinha era pra amassar, né?), só que não muito para que ele não perdesse sua forma de boneco gorduchinho e seguiram de mãos dadas pela trilha florida que levava a uma caverna.
Na entrada da caverna Mindi sentiu uma pontinha de medo, mas Keuto logo acendeu e tudo se iluminou. Então, por incrível que pareça, Keuto acendia feito um abajur no formato de boneco branco de massinha e além disso, estava até esquecendo de dizer que conforme ele andava, os pés dele iam fazendo faíscas no contato com o chão, feito aqueles tênis que acendem quando a gente anda. E tem mais, quando a Mindi amassava ele, seu corpo soltava uma espécie de talco brilhante, feito purpurina que ficava um tempo ainda flutuando pelo ar.
O interior da caverna era todo de pedras preciosas coloridas, com diamantes e ouro. Tudo brilhava conforme nossos amigos passavam... Lá no fundão da caverna tinha uma pedra bem grandona e, em cima dela um cajado enorme, feito um pedaço de cano azul.
Keuto explicou que aquilo era um didgeridoo, o primeiro instrumento musical jamais feito no planeta terra. Esse instrumento tinha sido criado pelos aborígenes australianos e emitiam um som sagrado, capaz de mover montanhas.
O pequeno boneco de massinha se aproximou da pedra grande, escalando-a e ajeitou sua boca redondinha na extremidade do instrumento, respirando em círculos, emitindo um som que parecia um monte de abelhas conversando ou mesmo um monstro gigante bocejando.
Conforme ele tocava, a parede do final da caverna se movia revelando um mundo todo brilhante e azul clarinho, feito de cristais e estrelas, um mundo sem chão ou teto, parecendo um céu mesmo, mas só que de outro jeito. No meio dessa espécie de céu, flutuava o Grande Mago Azul. Mago Azul saudou os dois amiguinhos com a cabeça e abriu bem grande os braços com um sorriso acolhedor nos lábios. Mindi e Keuto não tiveram dúvidas e correram, ou melhor, flutuaram na direção dos braços fortes de Mago Azul.
O abraço do Mago Azul era como um colo, uma dança, um sono bom e eles se deixaram ficar por uns instantes que pareciam eternos, no conforto daqueles braços quentes.
Depois se afastaram e o Mago fez sinal para que eles se deitassem de barriga pra cima em tapetes voadores prateados que planavam naquele céu de estrelas. Nisso ele tomou nas mãos um outro instrumento daquele que era maior ainda e feito de um material transparente como cristal, emitindo sons maravilhosos, completamente diferente dos sons que Keuto fazia, com todo respeito, pensou a menina.
Mesmo sem ninguém explicar, ela sabia que aquele era um momento de cura, sabia que seria curada daquela sua mania de não parar quieta, de não conseguir ir até o fim com as coisas, mania de ter medo de seus sentimentos, mania de viver agitada, de pensar demais.
Sabia também que Keuto estava sendo curado da sua mania de posse, da sua dificuldade de se despedir das pessoas e do seu medo de ficar sozinho.
O Mago entoou canções maravilhosas enquanto eles entravam num plano mental que era vazio de cores, onde reinava um mundo branco, brilhante e vazio de sentimentos, onde a sensação de preenchimento, de saciedade e de que tudo estava certo reinava também.
Quando Mindi abriu os olhos estava deitada na madeira da casa da árvore sem árvore da sala e seu pai a chamava para almoçar: Mindi Augusta, acorda pra cuspir!
Desceu as escadas de madeira meio atordoada, serena, plena e a galera da família olhou aquilo e não entendeu nada. Mas o que importa é que ela entendia tudo e se sentia extremamente grata!
(homenagem ao amigo-irmão Mateus Delbem que é Mago Azul e é Keuto também!)