Diana é uma coelha bacana, que tem cara de banana e gosta de chupar cana. Neste blog você irá acompanhar as principais as aventuras de nossa amiga coelha e de outros animais e personagens. São histórias coti-Dianas! espero que goste da nossa querida que sempre segura sua margarida!
sábado, 27 de dezembro de 2014
Nino, o bezerro menino
Sonhei que estava numa escola diferente. Era uma escola para crianças e para animais. Os animais moravam na escola e eram alunos e professores também. Conheci lá um menino de uns quatro ou cinco anos, moreno, fofucho, nem magro nem gordo, cabelos negros, olhos de jabuticaba que brilhavam muito e um sorriso meio de lado, de gente malandra, no bom sentido. Não sei seu nome, o sonho acabou antes que eu perguntasse, mas vou chamá-lo de Nino, o bezerro. Porque, na verdade, ele não era um menino, ele era um bezerro e foi através dele que eu descobri que todas aquelas crianças que estavam na parte de fora da escola-fazenda, ao redor do lago, dos campos e dos bosques, eram na verdade, animais moradores daquele local.
Ficamos muito amigos, Nino e eu. Quando ele se cansava, eu o carregava nas costas. Até um dia em que ele fez xixi em mim. Mas fazer o quê? Bezerros são assim, xixizudos sem controle!!!
(continua na próxima publicação)
quinta-feira, 25 de dezembro de 2014
A HORTA E O JARDIM DE MADALENA
Todo dia, Madalena colhia as flores do jardim para enfeitar sua casa. Em seguida, ia até a horta para pegar as verduras e legumes pro almoço e as frutas para o suco batido no liquidificador. Ela gostava de comer tudo que vinha da horta e sua mãe tinha um jeitinho todo especial de preparar as hortaliças com os temperos frescos e perfumados que ela também colhia do canteiro de ervas em forma de mandala.
(Mandala é um círculo mágico, que pode ser dividido em diversos formatos. A mandala de ervas da mãe de Madalena parecia uma pizza gigante no chão e em cada “pedaço da pizza” estava plantada uma erva diferente para preparo de chás e temperos.)
Mas acontece que nem toda criança é assim, como Madalena, que teve a sorte de acompanhar o crescimento de um legume ou de uma fruta e nem toda criança teve seu paladar acostumado com o sabor dos alimentos que a Mãe Natureza oferece. A maioria das crianças acaba gostando das coisas que a TV mostra, das coisas que tem o pacote brilhante de amarelo, azul, vermelho e prateado, das coisas são especialmente preparadas para viciar e anestesiar o paladar da gente.
Miguel, por exemplo. Ele era um primo de Madalena que morava do outro lado da cidade. Sua casa tinha até um quintal com horta e canteiro de ervas, mas ele só pensava em comer “porcarias”. Gostava de doces, balas, chocolates, salgadinhos, gostava de tudo que vinha em pacotes coloridos e brilhantes. Gostava de salsichas e alimentos enlatados, cheios de conservantes, colorantes, “prispicanti, atordoanti, intoxicanti, refrigeranti, anti, anti”! Miguel não estava nem aí e ainda dizia: “Não vivo sem uma porcaria!”
Certo dia, Miguel foi com sua mãe até a casa de Madalena, visitar o bebê que tinha nascido.
É bom dizer que Madalena estava um pouco de ciumenta com a chegada do irmão. Parecia até que a mãe gostava mais do bebê do que dela, o tempo todo trocando, dando de mamar,segurando no colo, fazendo dormir, etc... mas quando ela chegava perto daquela mini pessoa e via o irmãozinho sorrir ou respirar bem de levinho enquanto dormia, sentia uma alegria e uma calma tão grande que todos aqueles sentimentos ruins passavam e seu coração ficava grandão, do tamanho do mundo!
Bom, como eu dizia, era uma manhã de outono, soprava um vento gostoso e o sol brilhava no céu azul, quando Miguel chegou com sua mãe na casa de Madalena.
Miguel deu uma espiada no bebê e torceu o nariz: “Essa coisinha feia, enrugada, meio chorona, meio molenga não tem graça nenhuma!” - pensava ele enquanto observava, carrancudo, sua mãe toda derretida com o bebê no colo.
“Deixa pra lá!” – disse pra si mesmo. “O jeito é aceitar o convite da prima e ir conhecer o jardim e o quintal da casa”.
Naquele momento, o menino nem sequer imaginava que aquela manhã luminosa iria transformar sua vida para sempre!
Passaram rapidamente pelo meio do roseiral e Madalena pôde observar de soslaio duas joaninhas meio escondidas, dando risadinhas de vergonha ao verem o menino passar. Madalena já sabia que os insetos daquele jardim eram diferentes dos demais mas Miguel nem fazia idéia e virou o pescoço, desconfiado, com a leve impressão de ter ouvido algo, mas depois se distraiu e continuou andando rápido, para não perder a prima de vista.
Ao atravessarem o túnel que a parreira de maracujá formava na entrada da horta, a coisa já começou a mudar de figura , lagartixas, besouros e grilos se movimentavam por entre as folhas da horta procurando se esconder e dessa vez o menino teve a clara impressão de estar sendo observado.
- Tem mais alguém aqui? – perguntou para a prima.
- Depende – repondeu Madalena, sorrindo, misteriosa.
Miguel quis começar a sentir medo, mas a manhã estava tão linda, o cheiro da flor de maracujá era tão gostoso e seu coração estava tão quentinho no peito que o medo não cabia ali de jeito nenhum.
- Tipo, quem? – perguntou o menino com o coração batendo de curiosidade.
- Não olhe direto, disfarce e finja que vai pegar aquela berinjela ali e com o canto do olho dê uma espiada no tronquinho principal do pé de chuchu – cochichou a menina em seu ouvido.
Tudo aquilo era muito complicado! Ele não sabia direito o que era uma berinjela, sorte que a prima tinha apontado com o dedo e ainda por cima ele nem fazia idéia de que chuchu crescia daquele jeito, subindo pela cerca, mas como ele era um menino muito esperto, foi fácil deduzir e qual não fui sua surpresa ao avistar um louva-deus de terno e gravata assoviando enquanto balançava na molinha do chuchuzeiro!!!
Madalena sabia que não era fácil pra ninguém o primeiro encontro com aqueles insetos tão especiais e segurou na mão do menino que suava de emoção e ouvia dentro da cabeça o barulho de seu próprio coração batendo descompassado.
Miguel se acalmou e seguiu Madalena que o condiziu pela mão até um banco grandão de madeira que ficava no canto do jardim. Madalena sentou-se ao lado dele e falou alto, olhando para os canteiros:
- Ele é meu primo! Está afastado da natureza, contaminado pelas porcarias que come e pelo que assiste na TV e nos videogames, mas tem um bom coração e é um guerreiro, dá pra perceber, ele merece conhecer todo mundo!
Depois de dizer estas palavras, Madalena entoou uma melodia linda e aí a magia se fez: lagartixas, besouros, borboletas coloridas, joaninhas, abelhas, louva-deus, libélulas foram surgindo de todos os cantos do quintal, andando pela terra ou batendo asas, bailando, dando cambalhotas no ar, cada um com seu corpinho colorido.
Madalena explicou que cada serzinho daquele cuidava de um tipo de planta, verdura, legume, semente, fruto, flor ou erva medicinal e que suas cores variavam e indicavam a especialidade de cada um.
Miguel ficou maravilhado com tudo aquilo, parecia que estava dentro de um sonho. As libélulas chegaram muito perto e pousaram em seu braço. Explicaram então ao menino tudo que alguém precisaria saber sobre o poder das plantas, a vantagem de se alimentar delas. Explicaram também que quando alguém come, ouve, assiste, fala e pensa muita porcaria, forma-se em volta dessa pessoa uma nuvem cinzenta e que, a medida que a pessoa se purifica, a nuvem vai ficando brilhante, esbranquiçada, azulada, prateada ou dourada e a pessoa fica mais bonita do que nunca.
O menino aprendeu que se purificar era estar perto da natureza, era cuidar de seu corpo, de seus pensamentos, de seus sentimentos até ser como um bebê que respira leve e sorri durante o sono.
Aprendeu também que existem muitas palavras, músicas, livros, imagens, pessoas, locais e, principalmente, alimentos que são purificadores e a que missão que os humanos têm é a de proteger a natureza pura interior e exterior , plantar cada vez mais árvores para fazer o planeta voltar ao que era antes e cultivar cada vez mais bons sentimentos para fazer a humanidade voltar a viver em paz como era antes de todas as guerras.
Miguel estava maravilhado! Quando voltaram para dentro da casa de Madalena, a Tia Cuca, tinha preparado um monte de coisas saborosas, tudo natural, para o almoço deles e Miguel foi provando tudo e ajustando o olhar, o olfato e o paladar para o brilho, para o aroma e para o sabor especial que esses alimentos têm.
Quem conhece hoje o Miguel, não diz que um dia ele foi aquele menino chato e enjoado, viciado em porcarias, bitolado pela violência dos videogames e pelos programas agitados na TV. Hoje ele curte sua horta, com seus insetos mágicos e aprecia com entusiasmo o sabor de tudo que a horta dá!
FIM
domingo, 21 de dezembro de 2014
Conto de Natal - Grimelda, a vaca de presépio
Grimelda era uma vaca grande, em tamanho natural, feita de uma armação de arames de ferro, fibra e chinile. Mexia a cabeça para um lado e para o outro, como se fosse dizer que não, mas sem dizê-lo. Abanava o rabo tão devagar que, uma mosca nem se assustava e, ao invés de voar, sentava-se nessa cauda artificial como se sentasse num balanço.
Suas engrenagens eram lubrificadas a cada Natal, mas já não tinham o mesmo vigor do princípio, estavam velhas e cansadas de tantos dezembros e, principalmente, por ter que passar o ano inteiro guardada no depósito do shopping.
Crianças, velhos e adultos passavam diante do presépio e se admiravam com o olhar da vaca.
- Que impressionante! Parece que ela é de verdade mesmo!
- Nossa! Olhem pra essa vaca! Só falta falar!
- Mãe, como que a vaca chama?
- Não sei filha, é uma vaca de presépio, nem deve ter nome.
Grimelda ouvia tudo em sillêncio, aprisionada em sua existência de brinquedo.
- Não! - pensava ela - nem brinquedo eu sou. Brinquedos foram feitos para brincar. Mas ninguém brinca comigo. Fico aqui, protegida pela cerca baixa que faz parte da decoração do presépio e pelos vigilantes do shopping que não permitem que as crianças pulem a cerca para me abraçar.
A verdade é que Grimelda era diferente do burrico, das ovelhas, das estátuas de José, Maria, dos Reis Magos e dos Pastores, de tanto ser olhada e amada pelas crianças, a vaca tinha criado uma alma, um coração de onde vertia um poço de sentimentos.
O único que a compreendia era o Bebê Jesus, feito de gesso com uma túnica de cetim cobrindo o corpinho gordo, deitadinho nas palhas de sua manjedoura, com os bracinhos e perninhas estendidos para o alto, tinha recebido ainda mais amor e a confortava dizendo palavras doces e ternas.
Mesmo assim Grimelda não se conformava:
- Jesus Menino, não me importo em ser uma vaca de presépio, não me importo que minhas juntas enferrugem e ranjam mais e mais a cada ano, mas eu só queria falar com as crianças e velhos que passam por aqui!
- Mas Grimelda! - dizia Jesus Bebê - nem as vacas de verdade falam!
- Mas eu não sou uma vaca de verdade!
- Por isso mesmo!
- Um dia, só um único dia conversando com essas pessoas que passam por aqui, queria tanto tanto tanto!
A estátua do Menino Jesus teve pena da vaca Grimelda. Seu coração foi inundado pelo desejo de que, por um dia, a vaca pudesse falar com aquelas pessoas.
O desejo foi tão forte que, de seu pequeno coração de gesso, saíram raios azuis que chegaram até o céu e foram vistos por Jesus de verdade que se compadeceu com a história da vaquinha.
Jesus verdadeiro explicou à estátua de Jesus Menino que concederia a Grimelda a graça de poder falar durante a noite de Natal, só que todas as pessoas que falassem com ela iriam se esquecer de tudo isso no dia seguinte para que não enlouquecessem.
Grimelda esperou ansiosamente por aquela noite, principalmente porque o shopping ficaria aberto 24 horas e muitas pessoas passariam por lá para comprar os presentes de última hora ou simplesmente para passear e esquecer a solidão e a saudade de parentes mortos ou habitando em terras distantes.
Às 20:00 do dia 24 de dezembro daquele ano, o shopping viveu uma noite mágica...
Grimelda não só pôde falar, mas também pôde sair do cercado do presépio e levar as crianças pequenas para passear pelo shopping enquanto os pais faziam compras. Ela lhes falava de amor, de perdão, ela lhes curava as feridas da alma com seu amor imenso, recebido e armazenado ao longo de tantos natais.
As crianças, por outro lado, lhe contavam da vida, das árvores, do céu, do frescor de um banho de piscina, no sabor de um sorvete ou de uma fruta gostosa, lhe abraçavam com tanto carinho que lágrimas de alegria escorriam pelos olhos de Grimelda.
Quando aquela noite acabou, todos foram dormir e quando acordaram, pensaram que tinham sonhado.
E Grimelda?
Grimelda deixou de ser vaca. Sua alma de amor se desprendeu da carcaça de ferro e foi se juntar a Jesus.
No dia seguinte, o funcionário do shopping, se admirou com o estado do chinile gasto do lombo da vaquinha (Pudera! Depois de tanta criança montando!) e pensou:
- Nossa! Não tinha reparado que esta vaca estava tão velha, vou levar para a reciclagem hoje mesmo!
FIM
(Esperando pela Bia Antonini na praça de alimentação do Shopping Iguatemi de Campinas, 13/12/04.)
sábado, 20 de dezembro de 2014
LEÃO E A TARTARUGA Autores: Flávia e Rafael Fabrício Guilherme e Luis Felipe Russo Bernadete e Maria Eliza de Oliveira Onório Natan Corrocher Gaino Yannick Païssé Redação e floreios: Adriana Dezotti Fernandes
Era uma vez um leão muito bonzinho que se chamava Jujuba.
Ele vivia feliz numa enorme montanha que ficava ao lado de uma selva.
Adorava ficar no alto mais alto da montanha, sentindo o vento balançar sua juba.
Jujuba olhava as copas das árvores por cima, era como se fosse um tapete crespo, verde, que era a mistura de muitos tons de verde.
Ele sentia o cheiro da selva, um cheiro que era uma mistura de muitos cheiros.
Ele ouvia os sons da selva, um som que era a mistura de muitos sons.
Um dia, ele resolveu descer da montanha e entrar no meio da selva para conhecer, olhar, cheirar, ouvir, queria tocar cada verde, cada cheiro, cada som.
***********
Acordou bem cedo, respirou profundamente o ar da montanha, penteou sua juba fazendo nela trancinhas de "rastafári" para não se enroscar nas plantas, se alimentou bem para não ficar fraco no caminho e se embrenhou na tão sonhada selva.
Descobriu que por baixo daquele tapete crespo de vários tons de verde, tinham várias árvores, umas com troncos enormes, outras com troncos fininhos, umas altas, outras baixas feito arbustos, tinha umas lisas de um tronco claro verde esbranquiçado, outras com troncos rugosos de um marrom escuro e tão grandes que levava um tempo para dar a volta toda nela.
Conheceu orquídeas de várias espécies, cores e tamanhos, florzinhas coloridas rasteiras, arbustos com frutinhas vermelhas azedinhas que faziam sua bocona de leão salivar até o pescoço formigar.
Ouviu o canto de cada pássaro colorido que por ali passava e viu a variedade de cores que compunham suas penas, eram pássaros lindos e delicados que ele só tinha visto de longe, lá do alto de sua montanha.
Percebeu que o som da cachoeira grande, era diferente do som do córrego transparente, cheio de peixes coloridos e pedrinhas redondas no fundo. Sentiu o cheiro das samambaias que se fixam nas pedras ao lado das quedas d'água e o doce aroma dos lírios brancos, em fila nos trechos enlameados.
Tocou cada folha, cada pedra, cada planta que surgia em seu caminho até que se sentiu cansado e resolveu se sentar numa pedra diferente com uns desenhos malucos meio amarelados.
De repente, a pedra deu uma mexida e ele ouviu uma voz, vinda de baixo:
- Ai que peso, que calor, o que é que está acontecendo?
- Ai meu Deus, cruz-credo, que pedra estranha, Primeiro mexeu e depois parou, e agora falou, o que será que está acontecendo? - exclamou, apavorado o Leão, levantando-se num pulo.
- Dá licença, seu moço, mas é que eu não sou banquinho não, meu nome é Lili, a tartaruga que não ri.
- Oi, eu sou o Leão Jujuba e posso saber porque você não ri?
- É que eu não tenho amigos e uma pessoa sem amigos é uma pessoa infeliz, você não sabia não?
- Para falar bem a verdade, eu não sabia, não tenho amigos mas nunca tive, então não sei muito bem o que é tê-los. Mas se você quiser, podemos ser amigos, assim eu descubro como é que é e você começa a rir.
A tartaruga deu uma gargalhada, adorando a idéia de ensinar ao leão o valor da amizade e, de quebra, ganhar um amigão daqueles.
Foram andando, falando, tagarelando, contando histórias da vida de cada um quando de repente se depararam com uma enorme teia de aranha que barrava o caminho. No centro dela tinha uma aranhona preta peludona com cara de brava, aprisionando vários insetos em sua teia.
A tartaruga não foi com a cara da aranha, achou que não era justo ter feito uma teia daquelas bem no meio do caminho e além de tudo ela tinha pego muito mais insetos do que poderia comer. E foi aí que teve a idéia:
- Jujuba, vamos mostrar a essa peludona que tudo tem limite! Vou entrar dentro do casco e você me joga feito bola bem no meio da teia.
O leão, que também não tinha gostado nada daquela chatonenga, adorou a idéia e, assim que a tartaruga terminou de recolher a cabeça, o rabo e as patas prá dentro do casco, ele a arremessou com toda a força contra a teia gigante que se desfez, libertando os insetos presos e abrindo passagem pela trilha.
Jujuba passou mais do que depressa e foi logo procurar Lili, que estava caída de costas no meio de um arbusto.
- Jujuba, me desvira, socorro! - ela já estava com as patinhas e a cabeça de fora e, como toda tartaruga, não conseguia se desvirar sozinha.
- Amigo é prá essas coisas! - exclamou, feliz o leão, descobrindo o quanto era gostoso ter um amigo, ou, no caso, uma amiga.
E lá se foram eles pelo caminho, enquanto uma chuvinha fina começava a cair.
Chegaram na beira de um rio e a chuva estava cada vez mais forte.
Foi aí que viram uma caverna do outro lado do rio e resolveram atravassá-lo para poder se abrigar na caverna até a chuva passar.
- Eu sou forte - disse o leão - posso nadar com um braço só e te segurar com o outro.
Doce ilusão, a chuva engrossou de vez, a correnteza aumentou e foi a tartaruga que teve que virar bola e servir de bóia para Jujuba se apoiar e não se afogar.
Finalmente chegaram na outra margem e se abrigaram no aconchego da caverna, no meio de umas folhas secas e:
- Ôpa! O que é que é isso no meio das folhas? - perguntou, assustado o Leão.
- Ssssssou eu, Sssssabrina, a cobra gente fina.
- Oi Sabrina, eu sou Lili e ele é o Jujuba, você quer ser nossa amiga?
- Quero sim, e para provar minha amizade, vou busssscar para vocêsssss umasssss frutassssss deliciosassss que ficam lá no alto de uma árvore.
Saiu rapidinho, no meio da chuva que já tinha acalmado e estava fininha de novo e voltou com umas mangas que tinham um cheiro tão bom que o estômago de nossos amigos até roncou de fome.
Comeram até cansar e quando começou a escurecer eles ouviram um barulho diferente no fundo da caverna e descobriram mais um amigo, era Ari, o bem-te-vi. Ele tinha dormido lá dentro logo que a chuva começou e quando ele acordou e viu tudo escuro, se apavorou e quase machuca o bico de tanto tentar sair pelo lado errado, dando bicadas no fundo e provocando o barulho que havia chamado a atenção de nossos amigos.
Ari ficou muito contente quando conheceu melhor Jujuba, Lili e Sabrina e aceitou fazer parte da turma. Quando amanheceu, um sol lindo e brilhante convidava os amigos à brincar na beira do rio.
Foram todos fazer a maior bagunça jogando água uns nos outros quando viram algo estranho saindo da água:
Era Mané, o famoso jacaré que não tinha chulé e que nunca sabia de nada.
Mané brincou junto e ficou amigo também.
Comeram mais frutas que a Sabrina catava do alto das árvores e foi aí que o Jujuba teve uma idéia:
- Vamos morar comigo lá no alto da minha montanha?
Todos adoraram a idéia, Sabrina se enroscou numa árvore da outra margem do rio e se fez de cipó para que todos pudessem atravessar.
Mané apesar de ser jacaré e saber nadar, ficou com medo de atravessar e mordendo o rabo do leão que, por sua vez, estava se segurando na Sabrina ficou pendurado se arrastando metade na água e metade no ar.
- Vocês estão muito pesados, solta, Mané é um de cada vez- gritava a cobra.
- Solta meu rabo - gritava o leão.
- Só mais um pouquinho- resmungava Mané - entredentes.
Ari atravessou voando mesmo e Lili foi boiando do jeito que já tinha ido.
E assim, todos chegaram à margem oposta e seguiram, felizes, até a montanha do leão para mais aventuras e brincadeiras.
Fim
Sebo Dr. Anselmo, novembro de 2003
GIULIA E CAIO NO MUNDO DOS PALHAÇOS Adriana D.F.Païssé 25/04/97
Estava fazendo um friozinho gostoso, Giulia e Caio foram tomar sopa de feijão na casa da Bisa.
Mas a sopa dessa vez era só um pretexto, o motivo principal é que eles queriam ver os quadros de palhaço que a Bisa tinha pintado especialmente para os dois bisnetos.
Logo que chegaram, eles foram correndo para a sala das pinturas e lá encontraram as telas com lindos palhaços olhando bem no olho deles.
- Enquanto vocês ficam aí olhando, eu vou esquentar a sopa e por a mesa, já volto- disse a Bisa.
- Adóio paiaço - disse o Caio - pode pegá?
- À pode - disse Giulia que na linguagem do Caio queria dizer “não pode” - senta aí quietinho e olha como seu palhaço é binito, a Bisa já disse que a tinta ainda não secou e não pode por a mão.
- Úuuia - (era como ele pronunciava o nome da prima) - o ôio do paiaço tá messendo.
E qual não foi a surpresa da menina ao constatar que o palhaço estava piscando os olhos mesmo!!!!
- Não tenham medo! Só queremos convidá-los para conhecer o mundo dos palhaços!! - disse o palhaço do Caio.
- Vocês vão adorar! Venham! - completou o palhaço da Giulia fazendo sinal com a mão.
Giulia não teve tempo de pensar, numa fração de segundos, Caio tinha saído correndo e, num pulo já estava dentro do quadro, no colo do palhaço chamando:
- Úuuia, bem no mundo do paiaço! Bem iógo! - (ele ainda não conseguia pronunciar o “v” ).
-O negócio é ir mesmo, esse menino é um louco! - e lá foi nossa amiga para dentro da tela.
Dentro da tela não tinha separação de palhaços que tinha de um quadro para outro, todos estavam juntos, animadíssimos para mostrar tudo para os dois primos.
- Para quem vem de fora, viver nesse mundo parece complicado - o palhaço com roupa de bola era o apresentador e tinha começado a falar - eu vou explicar tudo e vocês vão entender rapidinho.
- Pode explicar para mim que sou moça e já tenho seis anos, o Caio é pequenininho e ainda não entende as coisas - Giulia já foi esclarecendo -ele não tem nem dois anos!!
- O Caio vai fazê doishh aninho! - repetiu nosso amiguinho que no fundo, no fundo entendia quase tudo e começou a bater palmas e a cantar “Parebéns prá você”. - é pite, é pite, ah, tim, bum, ehhhhhhh!
- Pronto! Agora vamos ouvir o tio palhaço falar que seu ainversário ainda não chegou.
- Tá bom Úia! Tá Bom.
O apresentador contou que lá tudo era ao contrário, se a gente estava triste, ria, se estava feliz, chorava, se estava com raiva de alguém agradava a pessoa e se gostava muito, maltratava.
Nisso chegou um palhaço chorando tanto que dava até dó e a Giulia perguntou:
- Nossa seu palhaço, porque o senhor está chorando assim?
- É porque faz um tempão que eu queria uma gravata nova e agora consegui! - respondeu o palhaço entre soluços.
- A sóia paiaço. (tradução do Caiano para o português: não chora palhaço).
- Eis um ótimo exemplo! - exclamou decepcionado o apresentador - vocês viram como ele está feliz?
Giulia não estava entendendo nada, ou melhor, até parecia que dava prá entender mas não dava prá acreditar.
Nem deu tempo de pensar muito e já chegaram dois palhaços gritando, brigando e rolando pelo chão. O Bolento explicou que eles eram super amigos e que era bonito ver uma amizade tão sincera.
Logo depois chegou um casal de palhaços abraçadinhos e os outros palhaços contaram que eles não sabiam mais o que fazer para ajudar no namoro dos dois pois era insuportável conviver com tanto ódio, tanta discussão.
- Eu não entendo mais nada - disse Guilia desanimada com tanta confusão de sentimentos.
- Parece complicado mas não é! - falou o palhaço de listras que até então tinha ficado quieto - você não acha que é bem legal assim?
- É iegau! - gritou Caio nos braços de outro palhaço que detestava crianças.
Giulia já estava ficando cansada de tanta palhaçada e além do mais ela não conseguia parar de pensar naquela sopinha da Bisa, quentinha esperando.
- Olha seu palhaço, muito obrigada pelo convite mas nós já estamos nos atrasando e a sopa da Bisa vai esfriar. Qualquer dia a gente volta para chorar e brigar com vocês tá bom? - apesar de não admitir ela já tinha entendido o espírito da coisa.
- Qué comê xôpa! - lembrou o loirinho guloso - O Caio tá cum fome.
- Não se esqueçam de voltar, estaremos sempre na parede de seus quartos! - despediu-se o apresentador.
- Não vou esquecer, tchau!
- Táu, um beso, ti amo paiaço!!!!!
E num passe de mágica, lá estavam eles na sala das pinturas e a Bisa estava chamando da cozinha:
- Estão surdos? A sopa está pronta, vocês vêm ou não vêm?
Guilia deu a mão para o primo e foram prá cozinha encontrar com a Bisa .
Enquanto todos tomavam a sopa em silêncio, a menina pensava: “Ainda bem que é só no mundo dos palhaços que é assim, imagine se no mundo real as pessoas fizessem essa confusão de sentimentos que bagunça que seria?”
FIM
(essa história foi inspirada nas visitas de Giulia Possamai Fernandes e de Caio Zurita Fernandes na casa da bisavó Santa Dezotti que adorava pintar telas com palhaços, rosas, casas e jardins antigos)
NÉGRI NO DESERTO (Augusta do Cerrado)
Aquele tinha sido o verão mais quente da história! Fazia muito calor, mas muito calor mesmo.
Todo ano, Négri passava as férias de janeiro na casa da avó que ficava numa cidade que já era quente por natureza, mas naquele janeiro em especial fazia ainda mais calor. Estava muito quente, difícil até para respirar.
Naquela tarde, Négri tinha se deitado na rede da varanda e acabou caindo no sono. Deu uma cochilada rápida e sonhou um sonho divertido, com cavernas no deserto e um camelo bigodudo chupando um picolé vermelho e dando gargalhadas.
Acordou dando risada e com uma vontade enorme de um picolé de groselha.
Négri, como seu avô que já tinha virado estrela, dentre todos os sorvetes do mundo, preferia o picolé de groselha.
O menino abriu os olhos, engoliu a saliva, deu uma espreguiçada emitindo um som que era uma mistura da linguagem dos elefantes com o dialeto das baleias do atlântico e criou coragem para se levantar da rede. Foi até o banheiro, molhou o rosto com a água fresquinha da pia e saiu à procura do sorveteiro.
Parecia que havia uma mão enorme e invisível fazendo pressão no alto de sua cabeça, dificultando a caminhada. Négri pensou que se o calor tivesse corpo, aquela seria a sensação de sua mão quente e pesada!
Felizmente, o menino não precisou andar muito e foi só aguçar os ouvidos para perceber, ao longe, o som do apito de Seu Zé, o sorveteiro ambulante mais antigo da cidade.
Orientado pelos acordes melodiosos do apito, dobrou a esquina, atravessou a praça, e pronto! Qual oásis no deserto, lá estava ele: um simpático velhinho careca, de boné azul e jaleco branco, empurrando o carrinho de sorvete branco com um guarda-sol de gomos amarelos, vermelhos e azuis.
Seu Zé conhecia muito bem o menino e assim que avistou aquela cabeleira loira e crespa correndo em sua direção, foi abrindo a tampa do carrinho para pegar aquele que o menino chamava de “O Sorvete dos Vampiros”.
O sorvete já veio pingando vermelho à medida que o menino retirava o papel para jogá-lo no cestinho de lixo do carrinho de sorvetes.
- Atenção para a promoção, Négri! – avisou o Seu Zé. Neste mês estamos sorteando viagens, preste atenção no palito antes de jogá-lo fora! Boa sorte!
O sorveteiro parecia animado, Négri não acreditava muito nessas promoções e sorteios, achava que era enganação do pessoal do marketing para vender mais os produtos. Sua tia sempre dizia que ele era criança mas tinha pensamentos de adultos de vez em quando.
O sorvete foi devorado rapidamente e qual não foi sua surpresa ao perceber que havia algo escrito com letra queimada na madeira avermelhada pela groselha:
VALE VIAGEM P/ MARROCOS C/D/A FEV/13
Négri nem acreditava no que via!
Voltou correndo para onde estava o carrinho de sorvetes. Pulava de alegria e entusiasmo enquanto mostrava o palito ao sorveteiro.
Seu Zé festejou juntamente com o menino, levantando os braços e gritando “Vai Timão!”. Ele era corintiano e só sentia que estava comemorando algo se a palavra “Timão” estivesse presente.
O sorveteiro explicou que c/d/a queria dizer "com direito a acompanhante" e que fevereiro de 2013 era a data de validade da promoção da maravilhosa viagem pelo Marrocos e seus mistérios.
Sua avó adorou a idéia e já ligou para seus pais que comemoraram dando gritos pelo outro lado do telefone.
Eles sugeriram que ele convidasse o tio Bigode que era aventureiro, adorava viajar e ainda por cima estava programando suas merecidas férias após 7 anos de trabalho contínuo!
Tio Bigode era solteiro, morava com a mãe que era irmã da avó de Négri e era pai de Kell, a prima que Négri adorava, e aí ficou fácil agilizar tudo.
Os dois embarcaram na véspera do carnaval, no dia 8 de fevereiro.
Uma vez no Marrocos, passaram rapidamente pela cidade e seguiram para o deserto. A promoção dava direito a camelos, tendas e guias, e lá foram eles na cadência suave do lombo daqueles animais corcundas!
Na primeira noite, montaram acampamento em um oásis, e participaram de uma festa típica, com odaliscas que dançavam entre tamareiras e tendas coloridas, iluminadas por tochas de fogo. Esbaldaram-se com tâmaras e outras frutas secas, tendo pão do deserto, coalhada e chá de hortelã como acompanhamento.
Na manhã seguinte foram despertos por um som melodioso vindo de um Alaúde. Mustafá, o chefe dos guias e tradutor, explicara na noite anterior que o Al-‘Ud tinha origem no século VII. Négri notou que o instrumento lembrava um bandolim, e se impressionara quando o guia contou que as suas 12 cordas eram feitas de seda e tripas de animais!
Viajaram mais um dia sob o sol quente do deserto e na segunda noite acamparam ao lado de umas montanhas vermelhas com buracos no alto que pareciam entradas de cavernas. Négri pensou que se elas não estivessem tão altas, eles poderiam explorá-las... e ficou olhando e olhando, só admirando e imaginando, justo ele que adorava cavernas!
Naquela noite, o menino tinha montado sua barraca perto da tenda dos guias, pois o tio Bigode tinha se apaixonado por uma das odaliscas e a convidara para seguir viagem com eles.
A temperatura estava caindo cada vez mais, todos estavam recolhidos nas tendas. O que era um brisa leve foi virando um vento muito forte e, em poucos minutos eles estavam no meio de uma tempestade de areia!
Négry achou sensato abrigar-se sob uma estrutura de madeira que ficava no canto da tenda. Posicionou seu saco de dormir num local seguro e acabou adormecendo com o zunido contínuo do vento do deserto.
Dormiu um sono profundo e quando acordou o sol ainda não tinha nascido. O céu estava tingido de um azul claro com esparsos tons de dourado.
Foi ao reparar melhor nas cores do céu que Négri se deu conta de que estava dormindo ao ar livre e que só aquela estrutura de madeira havia resistido à tempestade. Alguns farrapos do tecido da tenda ainda tremulavam sob a brisa do amanhecer.
A paisagem lá fora era outra, como se ele tivesse sido teletransportado para algum planeta distante.
Na verdade, ele estava lá mesmo, no mesmo deserto do Saara, só que o chão atingira agora a altura da entrada daquelas cavernas que ele tinha avistado antes da tempestade.
Négri olhou em volta e não viu ninguém, mas sua curiosidade foi mais forte que a preocupação e ele não resistiu à tentação de dar uma espiada na caverna maior.
No início estava tudo escuro e ele se lembrou da aula de ciências, quando a professora Dona Margarida ensinara sobre os cones e os bastonetes que são responsáveis pela visão noturna dos olhos e foi como se seus cones e bastonetes acordassem e seus olhos foram se adaptando à escuridão.
Havia um corredor bem à sua frente e ele pode vislumbrar uma luz tremulante que vinha de trás de uma curva do corredor.
Continuou, bravamente, seu caminho seguindo a claridade pelo interior da caverna e deparou-se com tochas presas nas paredes. O corredor iluminado foi se alargando até se tornar um grande salão circular com teto alto.
As paredes eram todas desenhadas com imagens de animais, insetos, estrelas, cometas, sóis e luas.
Négry não sabia explicar, mas se sentia extremamente bem naquele lugar. Para ele, tudo aquilo era lindo!
Num canto do salão havia uma poltrona feita de pedras, coberta por um tapete daqueles de tear que ele tinha visto aos montes quando atravessaram a cidade e, para sua surpresa, sentado na poltrona, havia um senhor muito velho, com um manto marrom de tecido desgastado, barbas longas e cabelos brancos, segurando um cajado com a mão esquerda.
- Aum-ruam, Amon-há, Shom-brishna, Dresedá! - saudou o velho senhor do deserto.
Négri sentiu seu coração bater mais forte! Na noite anterior, enquanto ceiavam diante do fogo, Mustafá tinha contado a lenda do Grande Sábio do Deserto e agora, ele, Négri, estava frente a frente com o sábio e nem sabia como se comportar.
- Dresedá! – repetiu o menino, sem saber o que significava aquela palavra.
Em seguida, aproximou-se do trono de pedra, e, num gesto de reverência, dobrou um dos joelhos diante do sábio e abaixou a cabeça colocando a mão direita no peito, como tinha visto nos filmes de cavaleiros e armaduras.
O sábio sorriu e, colocando a mão no ombro do menino, fez um gesto indicando que se aproximasse.
O menino deu um passo e se postou diante do velho senhor, olhando-o nos olhos. Seus olhos eram azuis de um azul único, parecido com a cor do mar da Grécia e havia neles tanta bondade e alegria que Négri sentiu como se seu coração derretesse e seus pés levitassem.
De repente, percebeu que estava flutuando mesmo! Olhou surpreso para o sábio que sorriu novamente, como se estivesse se divertindo com a pureza do menino.
Ele sabia que não podia perder a oportunidade! Fez um gesto com as mãos e a cabeça como se pedisse licença ao sábio, e foi dar uma volta lá fora.
Flutuou sobre as tendas semicobertas pela areia, viu os guias dormindo sob a luz pálida da aurora, localizou a tenda do tio, escondida atrás de uma duna alta, espiou as demais cavernas vermelhas, fez meia-volta e voltou pra sala do sábio.
Pousou novamente diante do velho senhor e desta vez, fez uma reverência à moda dos hindus, curvando levemente o corpo para frente em agradecimento, unindo as mãos em “namastê”, diante do peito.
Négri estava orgulhoso, num só encontro tinha esbanjado todo seu conhecimento gestual aprendido em filmes, livros e aulas de yoga da mãe!
O Velho Sábio do Deserto apreciou muito os modos e a boa educação do menino de pele dourada e cabelo de trigo em caracóis.
Olhou fixamente em seus olhos por um tempo que pareceu durar uma eternidade. Era como se ele estivesse lendo sua alma.
Em seguida, revirou uma pilha de livros que havia sobre um monte de pedras à sua esquerda, retirando dali um pergaminho que ofertou ao menino.
O pergaminho era ocre continha três imagens desenhadas em tinta vermelha: um Lobo, um Sol e uma Abelha.
Négri agradeceu novamente fazendo agora uma reverência muçulmana, ajoelhando-se, curvando o corpo para frente e estendendo ambos os braços no chão.
Saiu da caverna e foi correndo até a duna alta para acordar o pessoal.
Encontrou o tio ainda adormecido, com um braço em torno do pescoço de um camelo, beiço com beiço, como se estivessem se beijando!!! O menino ficou mole de tanto rir.
- Esse tio Bigode não tem jeito mesmo! – pensou com seus botões.
Virou a cabeça e localizou a odalisca ao longe, retirando a areia do cabelo e ajeitando os panos em torno dos ombros e da cabeça, enquanto os guias procuravam pelos utensílios espalhados por toda parte.
Os guias explicaram que haviam se reunido e tinham decidido voltar para a cidade. Uma parte do equipamento tinha se perdido e não seria nada sensato prosseguirem.
Négry estava satisfeito, havia conhecido o Grande Sábio do Deserto e pra ele a viagem já estava completa.
Tio Bigode, todo descabelado e meio envergonhado, limpava a baba de camelo da boca e concordou que já era tempo de voltar, além disso, a odalisca não gostava de aventuras e fazia muitas exigências, esbanjando mau humor.
Na cidade, foram recebidos com uma festa digna de príncipes! Músicos entoavam melodias do deserto com seus alaúdes, acompanhados pelos mais variados instrumentos de percussão.
Todos riam e dançavam celebrando o retorno da expedição.
Négry tinha se acostumado com o silêncio do deserto e começou a sentir sua cabeça rodar com tanto movimento e som.
Resolveu dar uma volta rápida pelas ruelas da cidade enquanto o Tio Bigode se divertia no meio de um grupo, dançando animadamente sua dança inventada, uma mistura de dança russa, mambo, salsa e samba.
O menino levava no bolso de sua túnica, o pergaminho que recebera do sábio.
Não tinha contado nada a ninguém sobre sua aventura nas cavernas, mas estava intrigado e não conseguia decifrar o enigma das imagens contidas no pergaminho.
As ruelas eram um pouco escuras e o menino ouvia seus próprios passos no chão de pedras.
Começou a sentir medo e tentou retomar o caminho de volta, mas aquilo parecia um labirinto, todas as ruas eram iguais e ao mesmo tempo extremamente diferentes!
Era como se ele estivesse andando em círculos, e o pavor começou a dominá-lo: o coração batia descompassado em seu peito e gotas de suor escorriam pelas suas têmporas apesar da brisa fria da noite. Encostou num muro para recuperar o fôlego, e abaixou a cabeça desconsolado, olhando ser ver para as pedras sob seus pés.
Nisso ele ouviu uma voz em sua mente:
- Não te apavores, Cabelo de trigo! Teu caminho será sempre de luz! – era a voz do Grande Sábio do Deserto chegando por telepatia!
Em seguida, Négri levantou a cabeça e avistou uma vidraça iluminada. Aproximou-se com cuidado, colando o rosto na janela.
O interior do pequeno cômodo estava repleto de estantes de madeira contendo livros antigos. Havia ainda dezenas de pilhas de livros pelo chão. Um homem pequeno e gorducho estava sentado diante de uma escrivaninha iluminada por um candeeiro de cobre trabalhado. Ele usava uma camisa branca, calças escuras com suspensórios e uma boina cinzenta. Escrevia em uma folha de pergaminho animal com uma pena feito caneta tinteiro.
No recuo do parapeito da janela, havia uma espécie de porta-retratos de ferro trabalhado contendo um anúncio em português: Manoel livreiro: compro e vendo livros, traduzo textos e pergaminhos.
Parecia um sonho! Négry bateu levemente no vidro da janela com os nós dos dedos e o Sr. Manoel levantou a cabeça de seu trabalho, olhando-o sobre os óculos e franzindo a testa com ar carrancudo.
- Desculpe incomodar, meu senhor. Mas trago aqui algo que talvez possa ser de seu interesse! – disse o menino enquanto exibia o pergaminho através da vidraça.
O rosto do português se iluminou. Levantou-se num salto, abriu rapidamente a porta rapidamente e convidou o menino para entrar. Antes de fechar a porta, Sr. Manoel olhou para os dois lados da ruela, para ter certeza de que ninguém seguira o menino.
- Ora pois, o que temos aqui, meu gajo? Como lograstes a possuir tal preciosidade?
Négry sentiu confiança no pequeno homem de nariz redondo e vermelho e contou toda a história.
- Inacreditável! Flutuastes também! Magnífico! – os pequenos olhos do senhor lusitano brilhavam de excitação.
O menino se divertia com o entusiasmo do português. Num ímpeto, Sr. Manoel foi até a janela, fechou as cortinas e voltou-se na direção do menino com uma expressão grave:
- Tu tens noção da responsabilidade que carregas, ó menino? Recebestes uma honra muito grande e tens de fazer jus a isso!
Négry achava engraçado tudo aquilo, mas conteve o riso para não ofender o homem.
- Sim, sim! Mas, diga-me, por favor, o que está escrito neste pergaminho, estou curioso!
Sr. Manuel sorriu, compreensivo, afagando carinhosamente a cabeça do garoto:
- Vamos lá! Ora pois! O Sol simboliza algo que está sempre lá, constante, forte e radiante. As abelhas, a união e a organização para construir algo em comum e o lobo o cuidado com o território e a lealdade à matilha. Significa que você nasceu com a missão de unir as pessoas ao seu redor, de fazer com que todos vivam em harmonia, de amenizar os desentendimentos e cuidar para que o grupo cresça em sabedoria e conhecimento para enfim, realizarem juntos, uma grande empreitada!
Négri sentiu, naquele momento, o peso da responsabilidade que carregava, mas sentiu também uma ternura, um calor gostoso e uma sensação de leveza e paz. Afinal de contas, aquela era uma missão bem fácil para ele que vivia rodeado de amigos!
Pensou que, de certa forma, ele já fazia isso, pois pertencia a várias turmas diferentes e vira e mexe, tinha que conversar com um e com outro para resolver as encrencas e os “diz que disse” entre a galera. Além disso, com a turma do bairro, as conversas sempre giravam em torno dos sonhos de cada um para melhorar o mundo.
- Emoldure este pergaminho e pendure-o na parede de teu quarto, nobre menino! Ele te servirá de lembrete. Não te afastes de tua missão!
Négri agradeceu ao Sr. Manoel pela gentileza da tradução, guardou o pergaminho e retomou o caminho pelo labirinto de ruelas.
Agora tudo parecia fácil! As ruas estavam mais claras e ele foi se guiando pelo som da festa que ficava mais alto à medida em que ele se aproximava do local.
Tio Bigode ainda dançava, mas desta vez era uma espécie de dança flamenca, batendo palmas e sapateando enquanto, em torno dele, lindas mulheres faziam movimentos graciosos com as mãos e com o corpo.
- Definitivamente, tio Bigode não tem jeito mesmo! – murmurou o menino, sorrindo satisfeito. Ele tinha aprendido com o guia Mustafá a palavra “definitivamente” e estava satisfeito em usá-la.
Terminada a festa foram levados a um hotel suntuoso, digno de um sheik árabe e ele pensou nostálgico, que nem todo o luxo do mundo seria mais acolhedor, aconchegante e mágico do que a caverna do sábio.
A viagem chegara ao fim e Négri estava ansioso para voltar para casa, encontrar seus amigos, abraçá-los, saber como tinha sido o carnaval deles e, principalmente, poder contar-lhes como tinha sido emocionante flutuar sob os olhos do Grande Sábio do Deserto.
Ele não sabia como os amigos iriam reagir ao ouvir toda aquela história tão maluca.
Será que se algum amigo lhe contasse tudo aquilo ele iria acreditar em tudo logo de cara?
Essas perguntas não lhe saíam da cabeça ao longo de toda a viagem de volta para casa.
Ao chegar, compartilhou com a família as banalidades da viagem e foi logo correndo encontrar a galera.
Na praça do bairro onde moravam, havia uma amendoeira gigante com um grande galho mais baixo que caía contra o gradeado da quadra de basquete e formava uma espécie de túnel. White, uma das amigas de Négri, adorava filmes de espionagem e tinha eleito a sombra da amendoeira como o local “ultra top especial” para as reuniões secretas da turma.
Sentaram-se em círculo, com as pernas cruzadas sobre a areia fina. Era final de tarde, o sol dourava as folhas da amendoeira e atravessava seus galhos em feixes de luz criando um ambiente todo especial.
Négri sentiu que poderia contar tudo. Não havia o que temer. Seus amigos o conheciam e acreditariam na sua história.
Depois de ter contado todos os detalhes de sua aventura, desde o sonho na rede da casa da avó até o encontro com Sr. Manoel, Négri propôs que todos ficassem em silêncio, dessem as mãos e sintonizassem na freqüência do Grande Sábio do Deserto, como quem ajusta o botão de um rádio.
Ele não sabia bem porque tinha tido aquela idéia maluca, mas sentia que era o que tinha que ser feito. Talvez fosse o sábio, lá de longe, lhe mandando sinais telepáticos mais uma vez...
De repente, a luz dourada do sol que entrava pelos vãos dos galhos da amendoeira ficou mais forte e eles tiveram até que fechar um pouco os olhos de tanto que ardiam!
Quando a luz diminuiu um pouco, eles abriram os olhos e notaram, surpresos, que o Grande Sábio do Deserto estava ali, como se fosse uma projeção de filme, meio visível, meio transparente, flutuando em posição de lótus, bem diante deles!
As crianças ficaram mudas de espanto, mas o olhar do velho senhor tranqüilizava a todos com seu azul profundo:
- Meus queridos, vim até vocês para que saibam que tudo o que este menino de cabelos de trigo lhes contou é verdade. Vim para lhes dizer que os amigos são o mais precioso tesouro que alguém possa possuir. Quem tem amigos jamais se sentirá sozinho.
Após proferir tais palavras o Grande Sábio do Deserto desapareceu numa nuvem de fumaça.
Eles ficaram ainda mais uns minutos em silêncio, como se levitassem.
Depois de algum tempo, soltaram as mãos. Não havia nada para dizer, um estado de graça, um sentimento de gratidão e alegria inundava o coração de todos.
Abraçaram-se felizes e saíram do esconderijo esbanjando felicidade.
Já tinha escurecido e cada um voltou para sua casa.
Mesmo estando cada um em sua casa, eles continuavam sintonizados.
Chegada a hora de dormir, foram cada um para seu quarto e se deitaram.
Cada criança trazia na memória os momentos com o velho sábio e foi como se eles ainda ouvissem as palavras que ele havia proferido antes de desaparecer numa nuvem de fumaça branca com perfume de alecrim:
Quem tem amigos jamais se sentirá sozinho.
Os amigos são o mais precioso tesouro que alguém possa possuir!
E assim, cada um em sua cama, cada um em seu quarto, cada um em sua casa, mas na mesma sintonia, fecharam os olhos ao mesmo tempo e mergulharam num sono tranqüilo.
Desta vez, sem sonhos.
FIM
(esta história foi inspirada no menino Luan Zurita Fernandes, habitante de Itamambuca- Ubatuba -SP para um concurso literário no ano de 2012. Para tal concurso, a autora usou o pseudônimo de Augusta do Cerrado. Augusta que era como seu pai a chamava e do Cerrado pelo amor que a autora guarda por suas terras em São Thomé das Letras - MG)
Barco à Vapor protocolo 360D72124169F581081A366DA5C2D1D9
Enviado às 18:34 do dia 30 de janeiro de 2013
Adriana Dezotti Fernandes é psicóloga graduada pela PUCCAMP (1997), mestre em educação pela UNICAMP (2009), escritora de contos infantis e contadora de histórias. Trabalha em seu próprio consultório desde 1997, com alguns intervalos para viver no exterior (Londres e Paris) e para curtir gravidez e bebê. Adriana, é mãe de Yannick de 14 anos, tia e dinda de um montão de gente grande e pequena!
Livros Publicados:
1999 - “A noite em que o sono sumiu” foi publicado bilíngüe francês/português em 1999 com a ajuda de seu pai que custeou as despesas gráficas. A história foi criada em 1994, no período em que Adriana foi babá de um menino de 3 anos em Paris; Samy, personagem principal do livro.
2004 - “Contos da Fada” – publicação independente. Coletânea de contos da autora compilados ao longo de um ano de contação de histórias no Sebo Doutor Anselmo em Araras –SP.
2007 – Coletânea de fotos e poemas: LEITE, Maria Cecília Álvares; FERNANDES, Adriana Dezotti; LEONARDI, Victor; SAULLO, César. Araras, cidade das árvores. São Paulo: Umana. 2007.
2010 – Projeto Proac- Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo. “O Tigre Lisão”- livro e CD. O projeto envolveu uma equipe com ilustrador, maestro e músicos e a autora contou a história de “O Tigre LIsão” para cerca de 8.000 crianças da rede pública e privada do Estado de São Paulo nesses últimos 2 anos.
Coleção livrinhos para colorir (todos com patrocínio de comerciantes, insdustriais e proprietários de escolas da cidade de Araras e Ubatuba:
(2012) A incrível história da Joaninha e do Fuscazul
(2012) Sumiguinha e a folha grandona
(2012) As crianças do vilarejo (em co-autoria com Cintia Tank)
Nelas, Dri e o Tico-tico voador
Não se sabe ao certo se foi aquela tinta cor de baunilha amarelada ou se foi a insistência, a dedicação, a repetição infinita daquela brincadeira de colocar o tico-tico de ponta cabeça e girar o pedal como se fosse máquina de pipoca ou algodão doce, mas o fato é que o tico tico começou a voar!
Primeiro devagar, flutuando de leve, o que foi bom, pois deu tempo pras meninas se refazerem do susto, correrem pra dentro de casa, deixarem um bilhete “Já voltamos” pra Naza e pegarem um cachecol pra cada uma. Depois foi só segurar firme no guidão e lá foram elas pra cima do quintal, pra cima da rua Tiradentes, pra cima da Praça Barão, da Escola Zurita, onde faziam o pré-primário na sala da Dona Nadir Vanzetti . Dali de cima dava pra ver o pátio e as escadarias da escola! E continuaram voando, subindo, por cima de Araras, por cima de tudo!!
Lá no alto, bem pra cima do mundo, elas viram a terra e viram que era azul como aquele astronauta tinha falado há um ano... Viram planetas, cometas, estrelas nascendo e outras que já tinham explodido há milhões de anos, viram foguetes passando, naves espaciais girando!
Viram tanto que se cansaram de tanto ver, de tanto saber e resolveram fingir que não tinham visto nada e preferiram descer. O Tico desceu e logo que chegaram, as meninas deitaram com a cabeça em almofadas do chão da cabana de lençóis...
... que tínhamos constuído só pra nós e dormimos uma tarde inteira e sonhamos um monte de besteira, só pra carregar a cabeça de coisas outras, só pra suportar e diluir a intensidade, da emoção, do susto e da verdade que tinha sido a tal viagem de Tico-tico, acima e além da cidade!
(essa história foi inspirada em memórias de fatos e sonhos de infância do final dos anos 60 e início dos anos 70 da autora com sua melhoramiga Ana Helena Lourencini - hoje Assumpção na casa do Théo e da Nazareth, na Rua Tiradentes em Araras)
MAFALDA, A GIRAFA ASTRONAUTA
Mafalda era uma girafa simpática, morava nas savanas da África rodeada pela família e pelos amigos e amigas girafas.
O que ela mais gostava de fazer era esperar o por-do-sol e aí, quando já estava bem escuro, ficava vendo as estrelinhas acenderem uma a uma no céu para depois irem aumentando e diminuindo de tamanho, brilhando mais aqui, menos ali, num jogo de luzes e piscares.
Virava seu pescoção para o alto e nem se importava se ficasse com um pouco de torcicolo, o que queria era observar as estrelas e os planetas.
Sonhava poder visitar o céu e passear entre as estrelas na imensidão.
Num dia, estava buscando umas árvores mais saborosas para comer os brotinhos das folhas, afastou-se do grupo distraída, e quando deu por si, estava numa clareira desconhecida e, no meio dela, quem diria! - uma nave espacial!!!
Mafalda não acreditou no que via, se aproximou bem devagar à medida que percebia que não havia ninguém no interior da astronave.
Acomodou-se na poltrona do comandante e ficou bem contente quando constatou que o teto era suficientemente alto para que seu pescoção de girafa coubesse com folga.
Tinha diante de si um enorme painel de controle com vários botões pretos pequenos e um bem maior da cor vermelha.
Nossa girafóidia não pensou duas vezes e apertou o botão bem forte com sua pata direita.
As portas se fecharam e ela começou a ouvir um barulho muito estranho que foi aumentando até virar um estrondo que impulsionou a nave para cima em movimentos espirais provocando um pouco de náusea e tontura em nossa amiga.
Mafalda apesar de pescoçuda, era muito esperta e, rapidamente, pegou a direção da nave a tempo, antes que esta se estatelasse no chão e lá foi ela, rompendo a estratosfera, céu afora, até que, passando por estrelas e planetas, chegou em Saturno e ficou encantada com os anéis.
Viu no painel um botão verde e adivinhou sua função: apertando-o, fez com que a nave parasse bem em cima de um dos anéis que parecia um tobogã.
Mafalda colocou um capacete e uma roupa de astronauta que encontrou por lá. Serviu direitinho e só seu pescoço ficou de fora, mas isso era um detalhe e ela nem se importava.
Desceu correndo da nave e já caiu sentada, foi deslizando pelo anel girando, girando, girando, sem conseguir parar.
Finalmente, cansada de tanto girar pelo anel de Saturno, teve a feliz idéia de se segurar no pé da escada da nave para poder brecar.
Conseguiu!!! Mas teve que ficar uns minutinhos parada abraçada com a base da escada até que sua cabeça parasse de girar.
Estava mais tonta do que na hora da subida da nave e pensou que seria bom poder seguir viagem novamente.
Mal tinha decolado e já deu de cara com uma chuva de meteoros que vinham em sua direção, quase trombou com um grandão, mas conseguiu se livrar e programou a bússula eletrônica para seguir direto e reto em direção da terra.
Afinal de contas, já estava bem cansada de tanta aventura, e pensou que, se ficar olhando o céu de lá debaixo não era tão divertido, pelo menos era bem mais seguro e esquentava o coração!
FIM
Amarula – a sonhadora feliz
tanto sonhar, ela já não conseguia nem brincar. Só queria dormir para poder viajar para lugares encantados, com castelos, torres, mares, barcos e jabuticabeiras em flor.
Dormir era como pegar um avião e sua cama era o aeroporto. Que delícia poder aterrisar com campos floridos, cobertos de margaridinhas amarelas e correr em companhia de outras crianças como se já se conhecessem há anos!!
Na noite passada, por exemplo, Amarula tinha ido (em sonho, claro!) para um outro planeta. As pessoas não tinham corpo nem voz, eram bolas de luz do tamanho de uma melancia e se comunicavam por transmissão de pensamento.
As pessoas/luzes dançavam no céu e a convidavam a dançar junto com elas.
Amarula aceitou o convite e deu um impulso para cima, percebendo, surpresa, que estava flutuando no ar e que seus movimentos poderiam ser realizados através de sua vontade,
era só querer e...
upa!
...uma cambalhota no meio de uma nuvem, era só imaginar que...
opa!
...um mergulho míssil no nada absoluto!
A menina voou a noite toda e voaria ainda mais se sua mãe não tivesse ido abrir a janela de seu quarto cantando e dizendo que já era hora de ir para a escola.
Escola.
Isso era algo que deixava a menina indignada, não que ela não gostasse, pois até que era legal aprender a ler direitinho, a fazer contas difíceis, a saber como as abelhas vivem e porque as formigas são tão certinhas, mas acordar cedo realmente não era seu forte!
E lá ia ela, reclamando e amaldiçoando caminho afora e quando chegava na escola seu mau humor ia embora feito bolinhas de sabão. Na hora do recreio brincava de correr, esconder, pular e mal tinha tempo para comer o lanche que sua mãe tinha cuidadosamente arrumado na lancheira de plástico.
Amarula era uma menina feliz, não fosse essa mania de não acordar, de viver no sonho, de sonhar na vida que já estava começando a fazer aparecer um número cada vez maior de notas vermelhinhas no boletim escolar.
Isso deixava sua professora e seus pais preocupados, eles sabiam que ela era inteligente, que ela podia tirar boas notas, mas a menina não estava nem aí, cada vez mais sonhadeira, era como se ela tivesse indo embora e deixasse seu corpo no piloto automático para despistá-los.
Mas gente que gosta da gente, conhece a gente muito mais que a gente mesma e seus pais viam que ela não estava lá, não falavam nada e foram se sentindo cada vez mais tristes, como se ela estivesse se esquecendo deles.
Um dia a menina acordou:
- O que é que aconteceu? Será que alguém morreu? – perguntou assustada aos pais.
- Você sonha demais e está deixando a gente para trás!- disse a mãe com ar ofendido.
- De tanto sonhar , nem notas você tira mais! – disse o pai já meio bravo.
A menina não sabia o que dizer, como explicar aos pais as viagens maravilhosas, os amigos dos outros mundos, as cores, os cheiros e os sabores de tudo que era encantado?
Nisso ela viu uma luzinha pequenina que acendeu e apagou em cima da cabeça de seu pai, e sem pensar perguntou: - Você nunca sonhou?
O pai então parou como se fosse uma estátua, os olhos lá na Terra de São Nunca mostravam que a resposta era sim e que, inclusive, ele estava sonhando naquele exato momento!
A mãe entortou um pouco a cabeça para cima como se olhasse para um ponto invisível no canto da parede e disse, distraída: - Olha!! Aquela luzinha acendeu de novo! Fazia anos que não a via!!
A menina sorriu satisfeita, eles também sabiam sonhar, só que por causa da correria da vida tinham esquecido e fingiam que era pessoas sérias.
Os três puseram-se a conversar, a dividir sonhos antigos, atuais e futuros, sonhos dormindo e sonhos acordados e a partir desse dia Amarula pode curtir mais a realidade, pois já não precisava mais sonhar pelos seus pais.
FIM
Araras, 10 de janeiro de 1997
A Menina Sorvetão
Era uma vez uma menina chamada Sorvetona.
Ela era feita de sorvete, cada dedo seu tinha um sabor.
O mindinho era de limão.
O seu-vizinho era de groselha.
O pai-de-todos era de abacaxi.
O fura-bolos era de chocolate.
E o mata-piolhos era de morango.
Os dedos dos pés também tinham sabores diferentes.
Um dia, sua mãe se esqueceu de comprar sorvetes prá ela e aí ela foi chupando os dedos.
Os dedos acabaram e ela foi chupando as mãos.
As mãos acabaram e ela foi chupando os dedos dos pés, os pés, as pernas, os braços, etc.
Até virar uma menina cabeça, pois, apesar de também ter a cabeça feita de sorvete, ela não conseguia lamber o nariz, os olhos, as orelhas e os cabelos que por sinal eram feitos de fios de ovos.
Foi assim que a menina sorvetão virou menina cabeção!!!!
Araras, Doctor Center, sala 24, ano de 2001 (Inspirada na minha amiguinha Vivi que tinha mania de chupar os dedos quando estava com vergonha.)
FIM
O GAMBÁ BADUÁ
Era uma vez um carinha
Na verdade era um gambá
Nome estranho ele tinha
Era o Gambá Baduá
O Gambá viu a Arara
E logo se pôs a cismar
Um pensamento ele tinha
Só sonhava em namorar
“Arara moça bonita
De cores fortes a voar
Arara fica comigo
Que eu quero te namorar”
“Gambá, ó meu amigo
Eu aceito seu pedido
Mas te peço um favor
E não vá ficar sentido”
“Pois diga, sem decoro
Ó minha amada Arara
Só penso em nosso namoro
Com você serei o cara!
“Te namoro, meu pivete
Mas com uma condição
Só se for pela internet
Ao vivo, num quero não!”
O gambá saiu de lado,
Cabisbaixo, chateado
“Pela internet num dá!
Quem namora qué beijá”
Encontra então a raposa
E resolve arriscar:
“Ó minha linda senhora,
Você quer me namorar?”
A raposa mais sincera
Já foi logo respondendo:
“Namorar você, já era!
O senhor vive fedendo!”
Baduá não entendia
Aquilo que ocorria
Para ele seu aroma
Era bom e não fedia!
Saiu aborrecido
Mais cabisbaixo ainda
E foi então que avistou
Uma gamboa muito linda!
(agora apresentamos
Pra vocês a produtora
Que viu na internet
Que não existe gamboa
“Gamboa é vegetal
Da árvore do gambozeiro
Gambá fêmea é animal
Escrevendo assim é certeiro”
A escritora, teimosa
Não queria abrir mão
Da sua gamboa gambosa
Querida do coração
Mas como a ortografia
É assunto pra letrados
Pôs de lado a teimosia
E corrigiu seus estragos: )
Aquela gambazinha
Tinha nome e era Tilé
A galera toda zuava
Do seu cheiro de chulé
Tilé vinha andando
Olhando o chão, deprimida
Estava triste e lamentava
Os dissabores de sua vida
Lembrava de cada vez
Que tinha sido zuada
O poney, a vaca, o maltês
Apontando e dando risada
Andava sem rumo e sem gozo
Que quase passa sem notar
O nosso amigo gambozo
Encantado, à suspirar
Nisso sente um aroma
Tão profundo e tão gostoso
Levanta logo a cabeça
E vê um gambá formoso
Seu coração bate forte
Assim como o de Baduá
Que pensa: “Estou com sorte,
Acho que vou me apaixonar...”
Baduá se aproxima
Assim, morrendo de medo
“Ai, que linda menina!
Mas foge, tarde ou cedo!”
Tilé também tem receio
E pensa já temerosa:
“ Se eu encontrasse um meio
D’ele me achar cheirosa!”
Então como num sonho
Veio a voz em seu ouvido:
“Que cheiro almiscarado
Invade o meu sentido
Me sinto enfeitiçado”
Dizia Baduá, comovido.
“E esse perfume mágico
Que o senhor exala?”
Tilé se sentia nas nuvens
Sem, ar, perdendo a fala.
Foi então que perceberam
Que não tinham o que temer
Pois tudo o que esperavam
Acabara de acontecer!
E assim termina feliz
Essa olfativa história
Do casal de perfumados
Para sempre na memória!!
FIM
Chácara Cavalinho Pucareno, 16/05/11
SUMIGUINHA E A FOLHA GRANDONA
ERA UMA VEZ uma formiguinha muito muito pequenininha.
Seu nome era Sumiga mas as outras formigas a chamavam de Sumiguinha.
Um dia, ela vinha andando pelo caminho com uma folha muito grande nas costas. Era uma folha enorme, bem grandona mesmo!
Nisso apareceu sua amiga Ormiga que falou:
- Oi Sumiguinha, tudo bem com você?
- Tudo bem nada! respondeu a Sumiguinha. Essa folha é muito pesada e estou muito cansada!
Esqueci de dizer que Sumiguinha tinha um problema: ela adorava reclamar!
Ormiga também tinha um problema que na verdade era uma qualidade: ela não podia ver ninguém sofrendo que queria ajudar na mesma hora!
E foi aí que a Ormiga teve a não muito boa idéia: ela foi devagarzinho atrás da Sumiguinha e NHAC! NHAC NHAC NHAC! Foi mastigando a folhona até comer tudo.
Sumiguinha percebeu de repente que não tinha mais aquele peso nas costas e perguntou:
-Ué! Cadê a minha folhona?
- Eu comi tudo, Sumiga! Gostou da surpresa? Agora vc não precisa mais reclamar, acabou o peso! – falou a Ormiga super orgulhosa, achando que tinha feito a melhor coisa do mundo.
- BUÁÁÁÁ!!!!!!!!! Eu quero minha folhona!!! BUÁÁÁ!! Era a minha comida para o inverno!!! – gritava Sumiguinha chorando e soluçando muito.
Ormiga ficou chateada. Ela achava que estava fazendo o bem e agora a amiga estava mais triste ainda...
(Isso às vezes acontece com a gente! Muitas vezes queremos ajudar a mamãe, o papai ou alguém e aí, sem querer nós atrapalhamos mais ainda, né?)
Nisso Ormiga teve uma idéia: foi lá longe onde todas as folhas grandes ficavam e pegou uma folha maior ainda, mais pesada ainda, mais saborosa ainda e levou a folha até a porta do formigueiro da Sumiguinha.
-Pronto, Sumiguinha. Aqui está uma folha bem grandona! Desculpe pelo que fiz antes eu só queria ajudar e acabei atrapalhando ainda mais! – disse Ormiga levando a Sumiguinha até a entrada do formigueiro para mostrar a surpresa da super folha.
Nossa amiga Sumiga ficou muito muito feliz, abraçou a Ormiga e gritou:
- Ebaaaaaaaaaaaaaaaa!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
FIM
RECADO PARA MAMÃE, PAPAI, VOVÓ, VOVÔ, TITIA E TITIO
Adriana Dezotti Fernandes
As crianças pequenas trazem dentro de si a essência, ou falando de maneira simples, a sementinha do bem, do mal, da solidariedade e do egoísmo, da criatividade e da imitação e é através do nosso exemplo e de nossas palavras que vamos educando e direcionando todo esse potencial para um lado ou para o outro...
Muitas vezes estamos cansad@s, irritad@s, apressad@s e acabamos por recusar e repreender a ajuda meio desastrada que esses pequeninos nos oferecem.
É muito importante para o desenvolvimento infantil, que tenhamos paciência e carinho para acolher e elogiar as tentativas de ajuda das crianças. Isso pode dar um pouco (ou até muito trabalho) ao longo do dia a dia, mas é um esforço que compensa.
Caso contrário, não vai adiantar lamentar e nem reclamar quando nos dermos conta de que criamos um exército de adolescentes e adultos egoístas, folgados e acomodados.
Beijos no coração de tod@s!
Muita luz, força e coragem nessa batalha desafiadora de fabricar bons adultos!
(Dri Dezotti é psicóloga, poetisa, contadora de histórias e escritora de contos infantis)
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