domingo, 25 de janeiro de 2015

Mindi e o Mago Azul - parte 2: Keuto e as engrenagens

Mindi almoçou quieta, em estado de graça. Dava uns suspiros de vez em quando, sempre com um sorrisinho de canto de boca. Os adultos olhavam curiosos, mas resolveram não comentar, afinal, “Time que tá ganhando não se mexe” e era bom passar o dia sem aquele fuçadeira fuçando em tudo. Depois do almoço, Mindi foi para o quintal espiar as galinhas. Ela gostava das galinhas, tinha a impressão de que se comunicava perfeitamente com elas e as galinhas gostavam dela também. Quando ela se aproximava, as galinhas vinham ao seu redor e ficavam encarando a menina, com aqueles olhos que olha sem ver, de galinha pescoceira ciscadeira, feito Mindi fuçadeira. Ao lado do galinheiro tinha um quartinho de ferramentas, Mindi já estava meio que pressentindo e, de repente, dito e feito! O facho de lanterna relampejou dentro do quartinho e Mindi já sabia de antemão que seria só entrar pra reencontrar seu amigo Keuto. “Mindi não Mim, Mindi de ninguém!” Foram as primeiras palavras do homenzinho branco ao vê-la. Ele também estava curado, sabia que Mindi não era só dele. Entendera que Mindi não era de ninguém. A menina sorriu satisfeita. Já estava com saudades daquele branquelinho carinhoso! Keuto fez um sinal e Mindi se aproximou do cantinho escuro de onde ele tinha surgido. “Vem Mindi, vem ki!” E lá se foi Keuto pra dentro de uma caixa velha de ferramentas. Mindi não teve dúvidas e seguiu o pequenino, enquanto seu corpo encolhia novamente. Passaram no meio de um bosque de alicates, chaves de fendas, parafusos e martelos e chegaram num local cheio de engrenagens, parecendo o filme do Charles Chaplin, Tempos Modernos! Keuto estava totalmente em casa, andava pelas engrenagens feito equilibrista de circo e Mindi foi fazendo o que podia para segui-lo. De engrenagem a engrenagem, chegaram numa caldeira enorme, com uma fornalha feito forno de pizza só que grande, só que de metal, só que com muito carvão e Mindi percebeu que os carvões eram trazidos por besouros pretos, daqueles que de vez em quando viram de ponta cabeça e não conseguem mais desvirar, feito fuscas capotados. Os tais besouros tinham uma espécie de bagageiro nas costas e vinham em fila trazendo os tocos de carvão para a caldeira. Conforme a caldeira borbulhava iam brotando eletrodomésticos que saíam de cima dela por uma esteira que conduzia a um porão onde caminhões de várias lojas vinham buscar. Mindi viu televisões, liquidificadores, aparelhos celular, computadores, tablets, etc, tudo saindo daquele lugar estranho e quente, movido pelo trabalho incansável dos besouros e pensou que o mundo das tecnologias era bem estranho mesmo. Keuto estava orgulhoso, tinha maços de dinheiro nas mãos. Mindi reparou que eram notas chinesas e coreanas. Keuto guardava tudo num bauzinho que já estava transbordando de tantas notas que mal fechava a tampa. O mini massinhudo teve que sentar em cima da tampa do baú para poder, finalmente, fecha-lo e passar o cadeado. A chave ele engoliu, sabe-se lá como faria para recuperá-la mais tarde... Mindi não gostou muito desse mundo, pensou que preferia mais o mundo do Mago Azul, mas achou interessante a visita e voltou correndo pra caixa de ferraementas, quartinho, galinheiro, casa sentindo-se muito cansada com aquele passeio inusitado entre as engrenagens do mundo.

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