quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Adauto e o tubarão – uma história para meninos adolescentes

(ilustração de Alexandre Mello - São Thomé das Letras) Era uma vez um menino chamado Adauto. Ele era marrom da cor de chocolate amargo, mas ao contrário do chocolate, Adauto era um doce de menino! Adauto vivia com sua mãe numa casinha à beira-mar, sua vida era brincar de bola, pular ondas, fazer castelos de areia, subir em árvores. Quando a noite chegava, ele e seus amigos se punham a caçar vaga-lumes, fazer fogueirinhas de papel, olhar estrelas cadentes e contar histórias e “causos” de assombração. Eles adoravam inventar brincadeiras e sua mãe achava tudo isso muito bom. À direita da praia onde eles moravam, havia um morro que separava a praia deles da outra praia mais ao norte e a única coisa que sua mãe pedia, era que eles não fossem na ponta da pedra A ponta da pedra era uma pedra grande que dava de frente pro alto-mar e era lá onde viviam os tubarões. Tinha sido naquele local que o pai de Adauto havia desaparecido quando ele era bem pequenininho. Cada vez que a criançada saía pra brincar, a mãe avisava: - Nada de ir na ponta da pedra, heim? Eles obedeciam e corriam, pulavam e nadavam pra lá e pra cá. Num certo dia, quando Adauto já não era mais criança, mais ainda não era grande também. Naquela fase da vida em que a cabeça vira um turbilhão, feito onda da praia em dia de ressaca, nosso amigo resolveu que já era hora de ir até a ponta da pedra. Só um pouquinho, só espiar, a mãe nem ia saber. E lá foi ele, sozinho, pra ponta da pedra. Sentou-se na pedra quente e ficou ali a cismar, a olhar o mar. Fez isso um dia, dois, uma semana, três semanas. A mãe perguntava onde ele tinha ido e cada dia ele inventava uma mentirinha diferente: fui na casa do Zeca, fui no campinho, fui apanhar goiaba, fui no riacho da montanha. E foi num dia de sol forte que ele teve a idéia de mergulhar no mar. “Acho que essa história de tubarão é invenção da minha mãe. Vai ver que meu pai fugiu e não quis mais voltar e ela fala que foi tubarão que pegou. Faz um tempo que eu to vindo aqui e até agora não vi nenhum sinal de tubarão” pensou o menino. Não dá pra saber se ele pensou isso sozinho ou se ele “foi pensado”... Sei lá, às vezes as más idéias estão flutuando pelo ar e a gente passa embaixo bem na hora! Só sei que ele respirou fundo e “tchigum!” mergulhou nas águas verde-azuladas daquele mar fresquinho. E mais semanas se passaram, e mais mergulhos Adauto deu, naquelas águas proibidas, sempre inventando uma mentirinha quando a mãe perguntava de seu paradeiro. Mas foi numa tarde cinza, sol escondido atrás das nuvens, ventinho batendo de leve na nuca, que o menino descobriu que a sorte às vezes cansa de estar sempre ao lado de uma criança abusada... Adauto mergulhou como sempre e ficou boiando de barriga pra cima, quando sentiu seu coração palpitar mais forte. Tum, Tum, Tum, Tum! Assim, do nada! Ele achou estranho e parou de boiar para olhar em volta. Qual não fui sua surpresa ao ver, vindo em sua direção, ainda em uma distância razoável, a barbatana de um tubarão! Ficou tão assustado que começou a se debater e foi afundando no mar. Foi aí que aconteceu a coisa mais estranha de todas, apareceu do nada um homem de bigode e sunga preta, puxou o menino pra cima e falou: - Nade meu filho, não se entregue. Sua mãe ainda vai precisar muito de você, você tem toda uma vida pra viver, vamos, coragem, nade!!! Adauto, sem entender nada, saiu nadando a toda velocidade que conseguia até alcançar a pedra, mas não foi rápido o bastante, quando estava pegando impulso pra subir na pedra, o tubarão o alcançou e abocanhou sua perna direita na altura do joelho. .O menino foi se arrastando, pegou sua camiseta e o canivetinho que sempre levava consigo, cortou uma babosa que nascera ali onde a pedra encontrava com a mata, cobriu todo o ferimento com a parte interna da babosa, amarrou bem a camiseta, pegou um pedaço de pau, fez uma muleta e voltou pra casa, dolorido, envergonhado, arrependido... Ao chegar na porta de casa, o menino não resistiu a tamanho esforço e caiu desfalecido bem na soleira. A mãe ouviu o ruído e ao abrir a porta, deparou-se com o filho desmaiado, com a perna faltando e já deu um jeito de levá-lo correndo ao hospital para costurar o corte. Quando ele contou toda a história, ela chorou mais ainda. O homem que ele descrevera, bigodudo, usando aquela sunga preta era seu pai! Como eles viviam afastados de tudo, seus pais nunca tinham tirado nenhuma foto na vida e o menino não tinha lembrança do semblante de seu pai. “Foi um milagre!” – exclamou a mãe banhada em lágrimas. Apesar de estar sem a perna, Adauto deu graças a Deus por estar vivo, ele tinha planos para o futuro e sabia que a mãe não viveria sem ele. Hoje Adauto é um homem grandão, com os cabelos feito cordas, trançados em “dread”. Ele se mudou pra São Thomé das Letras e vive por lá, andando de muletas no meio das pedras, conversando com todo mundo, contando sua história para os moleques “atentados” que às vezes se esquecem de tomar cuidado com os “maus pensamentos” e as “más idéias” que às vezes flutuam pelo ar... (Adauto na verdade, perdeu a perna após ter sido vítima de uma bala perdida numa favela de São Paulo. Hoje ele usa uma prótese na perna e só manca um pouco, nem se nota que ele não tem perna. Essa história foi inventada por mim em São Thomé das Letras, lá pelo ano 2004 ou 2005, quando eu contava histórias pras crianças que viviam em torno das pedreiras bem perto da pirâmide.)

Um comentário:

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