sábado, 20 de dezembro de 2014

Amarula – a sonhadora feliz

tanto sonhar, ela já não conseguia nem brincar. Só queria dormir para poder viajar para lugares encantados, com castelos, torres, mares, barcos e jabuticabeiras em flor. Dormir era como pegar um avião e sua cama era o aeroporto. Que delícia poder aterrisar com campos floridos, cobertos de margaridinhas amarelas e correr em companhia de outras crianças como se já se conhecessem há anos!! Na noite passada, por exemplo, Amarula tinha ido (em sonho, claro!) para um outro planeta. As pessoas não tinham corpo nem voz, eram bolas de luz do tamanho de uma melancia e se comunicavam por transmissão de pensamento. As pessoas/luzes dançavam no céu e a convidavam a dançar junto com elas. Amarula aceitou o convite e deu um impulso para cima, percebendo, surpresa, que estava flutuando no ar e que seus movimentos poderiam ser realizados através de sua vontade, era só querer e... upa! ...uma cambalhota no meio de uma nuvem, era só imaginar que... opa! ...um mergulho míssil no nada absoluto! A menina voou a noite toda e voaria ainda mais se sua mãe não tivesse ido abrir a janela de seu quarto cantando e dizendo que já era hora de ir para a escola. Escola. Isso era algo que deixava a menina indignada, não que ela não gostasse, pois até que era legal aprender a ler direitinho, a fazer contas difíceis, a saber como as abelhas vivem e porque as formigas são tão certinhas, mas acordar cedo realmente não era seu forte! E lá ia ela, reclamando e amaldiçoando caminho afora e quando chegava na escola seu mau humor ia embora feito bolinhas de sabão. Na hora do recreio brincava de correr, esconder, pular e mal tinha tempo para comer o lanche que sua mãe tinha cuidadosamente arrumado na lancheira de plástico. Amarula era uma menina feliz, não fosse essa mania de não acordar, de viver no sonho, de sonhar na vida que já estava começando a fazer aparecer um número cada vez maior de notas vermelhinhas no boletim escolar. Isso deixava sua professora e seus pais preocupados, eles sabiam que ela era inteligente, que ela podia tirar boas notas, mas a menina não estava nem aí, cada vez mais sonhadeira, era como se ela tivesse indo embora e deixasse seu corpo no piloto automático para despistá-los. Mas gente que gosta da gente, conhece a gente muito mais que a gente mesma e seus pais viam que ela não estava lá, não falavam nada e foram se sentindo cada vez mais tristes, como se ela estivesse se esquecendo deles. Um dia a menina acordou: - O que é que aconteceu? Será que alguém morreu? – perguntou assustada aos pais. - Você sonha demais e está deixando a gente para trás!- disse a mãe com ar ofendido. - De tanto sonhar , nem notas você tira mais! – disse o pai já meio bravo. A menina não sabia o que dizer, como explicar aos pais as viagens maravilhosas, os amigos dos outros mundos, as cores, os cheiros e os sabores de tudo que era encantado? Nisso ela viu uma luzinha pequenina que acendeu e apagou em cima da cabeça de seu pai, e sem pensar perguntou: - Você nunca sonhou? O pai então parou como se fosse uma estátua, os olhos lá na Terra de São Nunca mostravam que a resposta era sim e que, inclusive, ele estava sonhando naquele exato momento! A mãe entortou um pouco a cabeça para cima como se olhasse para um ponto invisível no canto da parede e disse, distraída: - Olha!! Aquela luzinha acendeu de novo! Fazia anos que não a via!! A menina sorriu satisfeita, eles também sabiam sonhar, só que por causa da correria da vida tinham esquecido e fingiam que era pessoas sérias. Os três puseram-se a conversar, a dividir sonhos antigos, atuais e futuros, sonhos dormindo e sonhos acordados e a partir desse dia Amarula pode curtir mais a realidade, pois já não precisava mais sonhar pelos seus pais. FIM Araras, 10 de janeiro de 1997

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