Diana é uma coelha bacana, que tem cara de banana e gosta de chupar cana. Neste blog você irá acompanhar as principais as aventuras de nossa amiga coelha e de outros animais e personagens. São histórias coti-Dianas! espero que goste da nossa querida que sempre segura sua margarida!
sábado, 20 de dezembro de 2014
NÉGRI NO DESERTO (Augusta do Cerrado)
Aquele tinha sido o verão mais quente da história! Fazia muito calor, mas muito calor mesmo.
Todo ano, Négri passava as férias de janeiro na casa da avó que ficava numa cidade que já era quente por natureza, mas naquele janeiro em especial fazia ainda mais calor. Estava muito quente, difícil até para respirar.
Naquela tarde, Négri tinha se deitado na rede da varanda e acabou caindo no sono. Deu uma cochilada rápida e sonhou um sonho divertido, com cavernas no deserto e um camelo bigodudo chupando um picolé vermelho e dando gargalhadas.
Acordou dando risada e com uma vontade enorme de um picolé de groselha.
Négri, como seu avô que já tinha virado estrela, dentre todos os sorvetes do mundo, preferia o picolé de groselha.
O menino abriu os olhos, engoliu a saliva, deu uma espreguiçada emitindo um som que era uma mistura da linguagem dos elefantes com o dialeto das baleias do atlântico e criou coragem para se levantar da rede. Foi até o banheiro, molhou o rosto com a água fresquinha da pia e saiu à procura do sorveteiro.
Parecia que havia uma mão enorme e invisível fazendo pressão no alto de sua cabeça, dificultando a caminhada. Négri pensou que se o calor tivesse corpo, aquela seria a sensação de sua mão quente e pesada!
Felizmente, o menino não precisou andar muito e foi só aguçar os ouvidos para perceber, ao longe, o som do apito de Seu Zé, o sorveteiro ambulante mais antigo da cidade.
Orientado pelos acordes melodiosos do apito, dobrou a esquina, atravessou a praça, e pronto! Qual oásis no deserto, lá estava ele: um simpático velhinho careca, de boné azul e jaleco branco, empurrando o carrinho de sorvete branco com um guarda-sol de gomos amarelos, vermelhos e azuis.
Seu Zé conhecia muito bem o menino e assim que avistou aquela cabeleira loira e crespa correndo em sua direção, foi abrindo a tampa do carrinho para pegar aquele que o menino chamava de “O Sorvete dos Vampiros”.
O sorvete já veio pingando vermelho à medida que o menino retirava o papel para jogá-lo no cestinho de lixo do carrinho de sorvetes.
- Atenção para a promoção, Négri! – avisou o Seu Zé. Neste mês estamos sorteando viagens, preste atenção no palito antes de jogá-lo fora! Boa sorte!
O sorveteiro parecia animado, Négri não acreditava muito nessas promoções e sorteios, achava que era enganação do pessoal do marketing para vender mais os produtos. Sua tia sempre dizia que ele era criança mas tinha pensamentos de adultos de vez em quando.
O sorvete foi devorado rapidamente e qual não foi sua surpresa ao perceber que havia algo escrito com letra queimada na madeira avermelhada pela groselha:
VALE VIAGEM P/ MARROCOS C/D/A FEV/13
Négri nem acreditava no que via!
Voltou correndo para onde estava o carrinho de sorvetes. Pulava de alegria e entusiasmo enquanto mostrava o palito ao sorveteiro.
Seu Zé festejou juntamente com o menino, levantando os braços e gritando “Vai Timão!”. Ele era corintiano e só sentia que estava comemorando algo se a palavra “Timão” estivesse presente.
O sorveteiro explicou que c/d/a queria dizer "com direito a acompanhante" e que fevereiro de 2013 era a data de validade da promoção da maravilhosa viagem pelo Marrocos e seus mistérios.
Sua avó adorou a idéia e já ligou para seus pais que comemoraram dando gritos pelo outro lado do telefone.
Eles sugeriram que ele convidasse o tio Bigode que era aventureiro, adorava viajar e ainda por cima estava programando suas merecidas férias após 7 anos de trabalho contínuo!
Tio Bigode era solteiro, morava com a mãe que era irmã da avó de Négri e era pai de Kell, a prima que Négri adorava, e aí ficou fácil agilizar tudo.
Os dois embarcaram na véspera do carnaval, no dia 8 de fevereiro.
Uma vez no Marrocos, passaram rapidamente pela cidade e seguiram para o deserto. A promoção dava direito a camelos, tendas e guias, e lá foram eles na cadência suave do lombo daqueles animais corcundas!
Na primeira noite, montaram acampamento em um oásis, e participaram de uma festa típica, com odaliscas que dançavam entre tamareiras e tendas coloridas, iluminadas por tochas de fogo. Esbaldaram-se com tâmaras e outras frutas secas, tendo pão do deserto, coalhada e chá de hortelã como acompanhamento.
Na manhã seguinte foram despertos por um som melodioso vindo de um Alaúde. Mustafá, o chefe dos guias e tradutor, explicara na noite anterior que o Al-‘Ud tinha origem no século VII. Négri notou que o instrumento lembrava um bandolim, e se impressionara quando o guia contou que as suas 12 cordas eram feitas de seda e tripas de animais!
Viajaram mais um dia sob o sol quente do deserto e na segunda noite acamparam ao lado de umas montanhas vermelhas com buracos no alto que pareciam entradas de cavernas. Négri pensou que se elas não estivessem tão altas, eles poderiam explorá-las... e ficou olhando e olhando, só admirando e imaginando, justo ele que adorava cavernas!
Naquela noite, o menino tinha montado sua barraca perto da tenda dos guias, pois o tio Bigode tinha se apaixonado por uma das odaliscas e a convidara para seguir viagem com eles.
A temperatura estava caindo cada vez mais, todos estavam recolhidos nas tendas. O que era um brisa leve foi virando um vento muito forte e, em poucos minutos eles estavam no meio de uma tempestade de areia!
Négry achou sensato abrigar-se sob uma estrutura de madeira que ficava no canto da tenda. Posicionou seu saco de dormir num local seguro e acabou adormecendo com o zunido contínuo do vento do deserto.
Dormiu um sono profundo e quando acordou o sol ainda não tinha nascido. O céu estava tingido de um azul claro com esparsos tons de dourado.
Foi ao reparar melhor nas cores do céu que Négri se deu conta de que estava dormindo ao ar livre e que só aquela estrutura de madeira havia resistido à tempestade. Alguns farrapos do tecido da tenda ainda tremulavam sob a brisa do amanhecer.
A paisagem lá fora era outra, como se ele tivesse sido teletransportado para algum planeta distante.
Na verdade, ele estava lá mesmo, no mesmo deserto do Saara, só que o chão atingira agora a altura da entrada daquelas cavernas que ele tinha avistado antes da tempestade.
Négri olhou em volta e não viu ninguém, mas sua curiosidade foi mais forte que a preocupação e ele não resistiu à tentação de dar uma espiada na caverna maior.
No início estava tudo escuro e ele se lembrou da aula de ciências, quando a professora Dona Margarida ensinara sobre os cones e os bastonetes que são responsáveis pela visão noturna dos olhos e foi como se seus cones e bastonetes acordassem e seus olhos foram se adaptando à escuridão.
Havia um corredor bem à sua frente e ele pode vislumbrar uma luz tremulante que vinha de trás de uma curva do corredor.
Continuou, bravamente, seu caminho seguindo a claridade pelo interior da caverna e deparou-se com tochas presas nas paredes. O corredor iluminado foi se alargando até se tornar um grande salão circular com teto alto.
As paredes eram todas desenhadas com imagens de animais, insetos, estrelas, cometas, sóis e luas.
Négry não sabia explicar, mas se sentia extremamente bem naquele lugar. Para ele, tudo aquilo era lindo!
Num canto do salão havia uma poltrona feita de pedras, coberta por um tapete daqueles de tear que ele tinha visto aos montes quando atravessaram a cidade e, para sua surpresa, sentado na poltrona, havia um senhor muito velho, com um manto marrom de tecido desgastado, barbas longas e cabelos brancos, segurando um cajado com a mão esquerda.
- Aum-ruam, Amon-há, Shom-brishna, Dresedá! - saudou o velho senhor do deserto.
Négri sentiu seu coração bater mais forte! Na noite anterior, enquanto ceiavam diante do fogo, Mustafá tinha contado a lenda do Grande Sábio do Deserto e agora, ele, Négri, estava frente a frente com o sábio e nem sabia como se comportar.
- Dresedá! – repetiu o menino, sem saber o que significava aquela palavra.
Em seguida, aproximou-se do trono de pedra, e, num gesto de reverência, dobrou um dos joelhos diante do sábio e abaixou a cabeça colocando a mão direita no peito, como tinha visto nos filmes de cavaleiros e armaduras.
O sábio sorriu e, colocando a mão no ombro do menino, fez um gesto indicando que se aproximasse.
O menino deu um passo e se postou diante do velho senhor, olhando-o nos olhos. Seus olhos eram azuis de um azul único, parecido com a cor do mar da Grécia e havia neles tanta bondade e alegria que Négri sentiu como se seu coração derretesse e seus pés levitassem.
De repente, percebeu que estava flutuando mesmo! Olhou surpreso para o sábio que sorriu novamente, como se estivesse se divertindo com a pureza do menino.
Ele sabia que não podia perder a oportunidade! Fez um gesto com as mãos e a cabeça como se pedisse licença ao sábio, e foi dar uma volta lá fora.
Flutuou sobre as tendas semicobertas pela areia, viu os guias dormindo sob a luz pálida da aurora, localizou a tenda do tio, escondida atrás de uma duna alta, espiou as demais cavernas vermelhas, fez meia-volta e voltou pra sala do sábio.
Pousou novamente diante do velho senhor e desta vez, fez uma reverência à moda dos hindus, curvando levemente o corpo para frente em agradecimento, unindo as mãos em “namastê”, diante do peito.
Négri estava orgulhoso, num só encontro tinha esbanjado todo seu conhecimento gestual aprendido em filmes, livros e aulas de yoga da mãe!
O Velho Sábio do Deserto apreciou muito os modos e a boa educação do menino de pele dourada e cabelo de trigo em caracóis.
Olhou fixamente em seus olhos por um tempo que pareceu durar uma eternidade. Era como se ele estivesse lendo sua alma.
Em seguida, revirou uma pilha de livros que havia sobre um monte de pedras à sua esquerda, retirando dali um pergaminho que ofertou ao menino.
O pergaminho era ocre continha três imagens desenhadas em tinta vermelha: um Lobo, um Sol e uma Abelha.
Négri agradeceu novamente fazendo agora uma reverência muçulmana, ajoelhando-se, curvando o corpo para frente e estendendo ambos os braços no chão.
Saiu da caverna e foi correndo até a duna alta para acordar o pessoal.
Encontrou o tio ainda adormecido, com um braço em torno do pescoço de um camelo, beiço com beiço, como se estivessem se beijando!!! O menino ficou mole de tanto rir.
- Esse tio Bigode não tem jeito mesmo! – pensou com seus botões.
Virou a cabeça e localizou a odalisca ao longe, retirando a areia do cabelo e ajeitando os panos em torno dos ombros e da cabeça, enquanto os guias procuravam pelos utensílios espalhados por toda parte.
Os guias explicaram que haviam se reunido e tinham decidido voltar para a cidade. Uma parte do equipamento tinha se perdido e não seria nada sensato prosseguirem.
Négry estava satisfeito, havia conhecido o Grande Sábio do Deserto e pra ele a viagem já estava completa.
Tio Bigode, todo descabelado e meio envergonhado, limpava a baba de camelo da boca e concordou que já era tempo de voltar, além disso, a odalisca não gostava de aventuras e fazia muitas exigências, esbanjando mau humor.
Na cidade, foram recebidos com uma festa digna de príncipes! Músicos entoavam melodias do deserto com seus alaúdes, acompanhados pelos mais variados instrumentos de percussão.
Todos riam e dançavam celebrando o retorno da expedição.
Négry tinha se acostumado com o silêncio do deserto e começou a sentir sua cabeça rodar com tanto movimento e som.
Resolveu dar uma volta rápida pelas ruelas da cidade enquanto o Tio Bigode se divertia no meio de um grupo, dançando animadamente sua dança inventada, uma mistura de dança russa, mambo, salsa e samba.
O menino levava no bolso de sua túnica, o pergaminho que recebera do sábio.
Não tinha contado nada a ninguém sobre sua aventura nas cavernas, mas estava intrigado e não conseguia decifrar o enigma das imagens contidas no pergaminho.
As ruelas eram um pouco escuras e o menino ouvia seus próprios passos no chão de pedras.
Começou a sentir medo e tentou retomar o caminho de volta, mas aquilo parecia um labirinto, todas as ruas eram iguais e ao mesmo tempo extremamente diferentes!
Era como se ele estivesse andando em círculos, e o pavor começou a dominá-lo: o coração batia descompassado em seu peito e gotas de suor escorriam pelas suas têmporas apesar da brisa fria da noite. Encostou num muro para recuperar o fôlego, e abaixou a cabeça desconsolado, olhando ser ver para as pedras sob seus pés.
Nisso ele ouviu uma voz em sua mente:
- Não te apavores, Cabelo de trigo! Teu caminho será sempre de luz! – era a voz do Grande Sábio do Deserto chegando por telepatia!
Em seguida, Négri levantou a cabeça e avistou uma vidraça iluminada. Aproximou-se com cuidado, colando o rosto na janela.
O interior do pequeno cômodo estava repleto de estantes de madeira contendo livros antigos. Havia ainda dezenas de pilhas de livros pelo chão. Um homem pequeno e gorducho estava sentado diante de uma escrivaninha iluminada por um candeeiro de cobre trabalhado. Ele usava uma camisa branca, calças escuras com suspensórios e uma boina cinzenta. Escrevia em uma folha de pergaminho animal com uma pena feito caneta tinteiro.
No recuo do parapeito da janela, havia uma espécie de porta-retratos de ferro trabalhado contendo um anúncio em português: Manoel livreiro: compro e vendo livros, traduzo textos e pergaminhos.
Parecia um sonho! Négry bateu levemente no vidro da janela com os nós dos dedos e o Sr. Manoel levantou a cabeça de seu trabalho, olhando-o sobre os óculos e franzindo a testa com ar carrancudo.
- Desculpe incomodar, meu senhor. Mas trago aqui algo que talvez possa ser de seu interesse! – disse o menino enquanto exibia o pergaminho através da vidraça.
O rosto do português se iluminou. Levantou-se num salto, abriu rapidamente a porta rapidamente e convidou o menino para entrar. Antes de fechar a porta, Sr. Manoel olhou para os dois lados da ruela, para ter certeza de que ninguém seguira o menino.
- Ora pois, o que temos aqui, meu gajo? Como lograstes a possuir tal preciosidade?
Négry sentiu confiança no pequeno homem de nariz redondo e vermelho e contou toda a história.
- Inacreditável! Flutuastes também! Magnífico! – os pequenos olhos do senhor lusitano brilhavam de excitação.
O menino se divertia com o entusiasmo do português. Num ímpeto, Sr. Manoel foi até a janela, fechou as cortinas e voltou-se na direção do menino com uma expressão grave:
- Tu tens noção da responsabilidade que carregas, ó menino? Recebestes uma honra muito grande e tens de fazer jus a isso!
Négry achava engraçado tudo aquilo, mas conteve o riso para não ofender o homem.
- Sim, sim! Mas, diga-me, por favor, o que está escrito neste pergaminho, estou curioso!
Sr. Manuel sorriu, compreensivo, afagando carinhosamente a cabeça do garoto:
- Vamos lá! Ora pois! O Sol simboliza algo que está sempre lá, constante, forte e radiante. As abelhas, a união e a organização para construir algo em comum e o lobo o cuidado com o território e a lealdade à matilha. Significa que você nasceu com a missão de unir as pessoas ao seu redor, de fazer com que todos vivam em harmonia, de amenizar os desentendimentos e cuidar para que o grupo cresça em sabedoria e conhecimento para enfim, realizarem juntos, uma grande empreitada!
Négri sentiu, naquele momento, o peso da responsabilidade que carregava, mas sentiu também uma ternura, um calor gostoso e uma sensação de leveza e paz. Afinal de contas, aquela era uma missão bem fácil para ele que vivia rodeado de amigos!
Pensou que, de certa forma, ele já fazia isso, pois pertencia a várias turmas diferentes e vira e mexe, tinha que conversar com um e com outro para resolver as encrencas e os “diz que disse” entre a galera. Além disso, com a turma do bairro, as conversas sempre giravam em torno dos sonhos de cada um para melhorar o mundo.
- Emoldure este pergaminho e pendure-o na parede de teu quarto, nobre menino! Ele te servirá de lembrete. Não te afastes de tua missão!
Négri agradeceu ao Sr. Manoel pela gentileza da tradução, guardou o pergaminho e retomou o caminho pelo labirinto de ruelas.
Agora tudo parecia fácil! As ruas estavam mais claras e ele foi se guiando pelo som da festa que ficava mais alto à medida em que ele se aproximava do local.
Tio Bigode ainda dançava, mas desta vez era uma espécie de dança flamenca, batendo palmas e sapateando enquanto, em torno dele, lindas mulheres faziam movimentos graciosos com as mãos e com o corpo.
- Definitivamente, tio Bigode não tem jeito mesmo! – murmurou o menino, sorrindo satisfeito. Ele tinha aprendido com o guia Mustafá a palavra “definitivamente” e estava satisfeito em usá-la.
Terminada a festa foram levados a um hotel suntuoso, digno de um sheik árabe e ele pensou nostálgico, que nem todo o luxo do mundo seria mais acolhedor, aconchegante e mágico do que a caverna do sábio.
A viagem chegara ao fim e Négri estava ansioso para voltar para casa, encontrar seus amigos, abraçá-los, saber como tinha sido o carnaval deles e, principalmente, poder contar-lhes como tinha sido emocionante flutuar sob os olhos do Grande Sábio do Deserto.
Ele não sabia como os amigos iriam reagir ao ouvir toda aquela história tão maluca.
Será que se algum amigo lhe contasse tudo aquilo ele iria acreditar em tudo logo de cara?
Essas perguntas não lhe saíam da cabeça ao longo de toda a viagem de volta para casa.
Ao chegar, compartilhou com a família as banalidades da viagem e foi logo correndo encontrar a galera.
Na praça do bairro onde moravam, havia uma amendoeira gigante com um grande galho mais baixo que caía contra o gradeado da quadra de basquete e formava uma espécie de túnel. White, uma das amigas de Négri, adorava filmes de espionagem e tinha eleito a sombra da amendoeira como o local “ultra top especial” para as reuniões secretas da turma.
Sentaram-se em círculo, com as pernas cruzadas sobre a areia fina. Era final de tarde, o sol dourava as folhas da amendoeira e atravessava seus galhos em feixes de luz criando um ambiente todo especial.
Négri sentiu que poderia contar tudo. Não havia o que temer. Seus amigos o conheciam e acreditariam na sua história.
Depois de ter contado todos os detalhes de sua aventura, desde o sonho na rede da casa da avó até o encontro com Sr. Manoel, Négri propôs que todos ficassem em silêncio, dessem as mãos e sintonizassem na freqüência do Grande Sábio do Deserto, como quem ajusta o botão de um rádio.
Ele não sabia bem porque tinha tido aquela idéia maluca, mas sentia que era o que tinha que ser feito. Talvez fosse o sábio, lá de longe, lhe mandando sinais telepáticos mais uma vez...
De repente, a luz dourada do sol que entrava pelos vãos dos galhos da amendoeira ficou mais forte e eles tiveram até que fechar um pouco os olhos de tanto que ardiam!
Quando a luz diminuiu um pouco, eles abriram os olhos e notaram, surpresos, que o Grande Sábio do Deserto estava ali, como se fosse uma projeção de filme, meio visível, meio transparente, flutuando em posição de lótus, bem diante deles!
As crianças ficaram mudas de espanto, mas o olhar do velho senhor tranqüilizava a todos com seu azul profundo:
- Meus queridos, vim até vocês para que saibam que tudo o que este menino de cabelos de trigo lhes contou é verdade. Vim para lhes dizer que os amigos são o mais precioso tesouro que alguém possa possuir. Quem tem amigos jamais se sentirá sozinho.
Após proferir tais palavras o Grande Sábio do Deserto desapareceu numa nuvem de fumaça.
Eles ficaram ainda mais uns minutos em silêncio, como se levitassem.
Depois de algum tempo, soltaram as mãos. Não havia nada para dizer, um estado de graça, um sentimento de gratidão e alegria inundava o coração de todos.
Abraçaram-se felizes e saíram do esconderijo esbanjando felicidade.
Já tinha escurecido e cada um voltou para sua casa.
Mesmo estando cada um em sua casa, eles continuavam sintonizados.
Chegada a hora de dormir, foram cada um para seu quarto e se deitaram.
Cada criança trazia na memória os momentos com o velho sábio e foi como se eles ainda ouvissem as palavras que ele havia proferido antes de desaparecer numa nuvem de fumaça branca com perfume de alecrim:
Quem tem amigos jamais se sentirá sozinho.
Os amigos são o mais precioso tesouro que alguém possa possuir!
E assim, cada um em sua cama, cada um em seu quarto, cada um em sua casa, mas na mesma sintonia, fecharam os olhos ao mesmo tempo e mergulharam num sono tranqüilo.
Desta vez, sem sonhos.
FIM
(esta história foi inspirada no menino Luan Zurita Fernandes, habitante de Itamambuca- Ubatuba -SP para um concurso literário no ano de 2012. Para tal concurso, a autora usou o pseudônimo de Augusta do Cerrado. Augusta que era como seu pai a chamava e do Cerrado pelo amor que a autora guarda por suas terras em São Thomé das Letras - MG)
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Enviado às 18:34 do dia 30 de janeiro de 2013
Adriana Dezotti Fernandes é psicóloga graduada pela PUCCAMP (1997), mestre em educação pela UNICAMP (2009), escritora de contos infantis e contadora de histórias. Trabalha em seu próprio consultório desde 1997, com alguns intervalos para viver no exterior (Londres e Paris) e para curtir gravidez e bebê. Adriana, é mãe de Yannick de 14 anos, tia e dinda de um montão de gente grande e pequena!
Livros Publicados:
1999 - “A noite em que o sono sumiu” foi publicado bilíngüe francês/português em 1999 com a ajuda de seu pai que custeou as despesas gráficas. A história foi criada em 1994, no período em que Adriana foi babá de um menino de 3 anos em Paris; Samy, personagem principal do livro.
2004 - “Contos da Fada” – publicação independente. Coletânea de contos da autora compilados ao longo de um ano de contação de histórias no Sebo Doutor Anselmo em Araras –SP.
2007 – Coletânea de fotos e poemas: LEITE, Maria Cecília Álvares; FERNANDES, Adriana Dezotti; LEONARDI, Victor; SAULLO, César. Araras, cidade das árvores. São Paulo: Umana. 2007.
2010 – Projeto Proac- Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo. “O Tigre Lisão”- livro e CD. O projeto envolveu uma equipe com ilustrador, maestro e músicos e a autora contou a história de “O Tigre LIsão” para cerca de 8.000 crianças da rede pública e privada do Estado de São Paulo nesses últimos 2 anos.
Coleção livrinhos para colorir (todos com patrocínio de comerciantes, insdustriais e proprietários de escolas da cidade de Araras e Ubatuba:
(2012) A incrível história da Joaninha e do Fuscazul
(2012) Sumiguinha e a folha grandona
(2012) As crianças do vilarejo (em co-autoria com Cintia Tank)
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